Blog

Divulgar ciência: O caso das pautas nas redações

É inegável que divulgar o conhecimento ao grande público é uma tarefa essencial para a ciência como empreendimento, e para os cientistas como empreendedores. Este assunto não é novidade e muitos autores já se debruçaram sobre esta questão. Uma sugestão de leitura que posso dar sobre o tema é a proposta de disseminação dupla defendida como forma do trabalho do cientista, como apresentado por Robert Sommer neste artigo aqui. Sou extremamente favorável a esta proposta e há fortes indícios que boa parte dos cientistas, sobretudo aqueles brasileiros e em especial os que trabalham no Brasil, tem grande resistência em fazer divulgação para o grande público, por diversos fatores. Esta questão da divulgação tem se tornado ainda mais premente no Brasil e no mundo, pelo aumento crescente do interesse da população sobre informação científica acessível, atualizada e de qualidade. Isto deveria ser visto pelos cientistas como uma excelente janela de oportunidade para divulgar cada vez mais o seu trabalho, alcançando um número maior de leitores, criando a possibilidade de atrair mais olhares e mentes interessadas em pensar a ciência e, mais do que isto, em fazer ciência. A manutenção de um alto interesse sobre a ciência em uma sociedade é fundamental para que novas gerações possam se envolver no empreendimento. Afinal de contas a ciência necessita disto para existir, se reinventar e seguir o seu caminho. Atualmente a facilidade para a produção de diferentes tipos de comunicação científica facilita ainda mais o trabalho de disseminação dupla. Então, caro colega cientista, as justificativas para não divulgar seu trabalho, ideias e contribuições ao grande público são menos justificáveis hoje.

Mas é bem verdade que não apenas a estratégia de disseminção dupla é a única forma de se atingir um amplo público. Os meios de comunicação (esta é uma concepção em mudança hoje, mas aqui me refiro a jornais, revistas, canais de TV, entre outros) também tem um papel importante no processo de divulgação da ciência. Estes meios são aliados importantes na realização deste processo, mas tem sido muito tímidos ou equivocados em muitas de suas estratégias sobre como fazê-lo. Faço esta apreciação com base na experiência acumulada, já há alguns anos, em ser sistematicamente procurado por diferentes redações para emitir opinião sobre assuntos diversificados. Me parece que o problema, neste caso específico que descrevo, está na forma como as ideias das pautas são criadas dentro da redação. Como psicólogo social em geral sou procurado por diversos jornais, revistas e TVs, via assessoria de imprensa de minha universidade, a expressar minha opinião sobre diversos temas. Me parece que muitos destes assuntos são pensados por profissionais que trabalham em editoria que compactou-se chamar de ‘comportamento’, uma ideia, até onde me é dado saber, criada dentro de redações de veículos brasileiros há algumas décadas atrás. Na grande maioria das vezes minha resposta em contribuir é: não! Se você leu este post até aqui já deve ter percebido que sou favorável à divulgação, e julgo esta uma tarefa de extrema importância. Mas minha resposta negativa se deve, invariavelmente, a um motivo: a pauta, como se apresenta, não tem pé-nem cabeça, ou quando um pouco melhor, não tem clareza sobre seu propósito. No geral temas propostos acabam por potencializar, se retratados desta forma, ou uma visão estereotipada sobre o comportamento humano ou uma incompreensão sobre a forma como o cientista realmente é capaz em dar sentido à realidade que nos rodeia.

As ideias que motivam pautas precisam ser melhor elaboradas e qualificadas. Para isto vejo apenas uma saída: os profissionais que estão nas redações precisam se apropriar mais do conhecimento científico na sua área de editoria. Quiçá as redações deveriam contar com profissionais com boa formação em ciência para auxiliar na elaboração de pautas, nas diferentes editorias. O jornalismo científico, como tem ficado conhecida uma área específica (ainda que me pareça que todo jornalista deveria se preocupar de forma central com boa fonte de informação científica para elaborar matérias em sua área de editoria, por isto o adjetivo  ‘científico’ soa estranho, muitas vezes), ainda engatinha no Brasil. Até onde saiba ela é recente e ainda pouco desenvolvida, seja no campo de atuação, seja na formação universitária. Mas ainda assim consigo verificar, em vários dos meios de comunicação que acompanho, que há boas iniciativas neste sentido. Ou de jornalistas que se classificam como divulgadores da ciência, tendo isto como pauta específica. Ou colunistas que fazem um excelente trabalho para divulgar conhecimento científico de ponta, daquele tipo que estudamos no laboratório para subsidiar nossa própria pesquisa. Há bons exemplos, mas são ainda poucos! Me parece que a qualificação das redações para pensar em pautas bem elaboradas do ponto de vista científico, seja na área de ‘comportamento’ ou em nas outras editorias, seria uma excelente forma de minimizar percalços ou a má divulgação de conhecimento científico atual e relevante. Vale lembrar que uma má divulgação tem efeito pior do que a ausência de divulgação, servindo muito mais como um desserviço para a educação científica geral da população.

Quando a profecia falha: Como viver em um mundo de incertezas?

Esta semana uma notícia foi publicada em vários meios de comunicação (ex: G1, FOLHA, CORREIO). Um vidente teve uma premonição sobre a queda de um voo da TAM entre São Paulo e Brasília no dia 26/11/2014. As notícias dão conta que ele registrou a premonição em cartório. O conhecimento prévio sobre a dita premonição teve muita repercussão. Por exemplo, o síndico do prédio, em que supostamente o avião cairia, comunicando a profecia aos condôminos, a mudança do número do voo por parte da cia aérea, entre outras. Tomei conhecimento destas notícias em diferentes meios de comunicação, como os que citei neste post.

Mas o que me chama a atenção neste caso diz respeito aos mecanismos psicológicos envolvidos neste tipo de evento e este é o objetivo deste post. São vários e fundamentais para entender a irracionalidade humana. Ainda que a maioria de nós apregoe uma visão do ser humano como entidade racional, eventos como estes ressaltam justamente a enorme influencia da irracionalidade como aspecto inerente à nossa psicologia. Neste caso particular com o uso de mecanimos que buscam dar sentido e previsibilidade ao mundo ao nosso redor.

A análise das explicações post facto do próprio vidente deixam claro o funcionamento de um mecanismo psicológico poderoso que os psicólogos sociais descreveram há várias décadas e que chamamos de dissonância cognitiva. Com a falha da profecia os argumentos atribuídos ao vidente (nesta reportagem) escancaram o funcionamento do mecanismo, inclusive produzindo uma estratégia de autopromoção e, consequentemente, reforçando a própria premonição, graças a divulgação antecipada da mesma. Isto porque a explicação para o não ocorrido, daquilo que fora profetizado, foram as providências tomadas pela cia aérea, como alteração do número do voo, troca da aeronave, intensificação de manutenção, etc etc. Profecias que falham são uma situação natural largamente utilizadas para se compreender a dissonância provocada nos que acreditavam e a propagavam. Lembram que o mundo iria acabar há dois anos atrás? Um colega meu, Fabio Iglesias, publicou um artigo de divulgação muito oportuno sobre este fenômeno, exatamente no dia 21/12/2012. É de divulgação e curto. Recomendo fortemente a leitura para se compreender este fenômeno clicando aqui.

Mas um outro aspecto, fortemente associado a estas ocorrências proféticas, é a tentantiva incessante de se conviver com a imprevisibilidade. Na verdade, muito da motivação de uma profecia, está balizada na necessidade de ‘prever’ o ‘imprevisível’ e, assim, construir uma percepção de controle sobre as incertezas. Na grande maioria dos casos estas profecias versam sobre temas que dizem respeito a ocorrências dramáticas, que envolvem situações de grande gravidade, como desastres e catástrofes que podem provocar a morte de muitos ou o extermínio da espécie (e.g. fim do mundo). Já parou para pensar porque as vidências e premonições sobre fatos corriqueiros, como o estacionamento do shopping ou a fila para o cinema, não são feitas e/ou não ganham atenção? Um dos fatores mais importantes sobre a relevância e a proporção que estas premonições tomam diz respeito à saliência da morte, do fim da existência, que tais eventos trazem ao foco da nossa atenção. Este é o motivo que dá sentido às profecias, bem como à sua popularidade. O ponto central é que a morte é certa e derradeira, mas o momento de sua ocorrência não!

A produção da saliência da morte e da incerteza de quando ocorrerá nos remete a mecanismos psicológicos de busca de previsibilidade e, consequentemente, conforto e estabilidade psicológica. Como psicólogos sociais somos muito interessados em compreender como a irracionalidade humana funciona como um dos determinantes do nosso comportamento. Para compreender este aspecto descrevemos, ao longo da história da disciplina, vários mecanismos para tentar compreender tais determinantes. Um que é muito afeto a este tema das profecias é a Crença no Mundo Justo – crença implícita de que o mundo é um lugar justo. O mecanismo que está por trás deste processo psicológico é uma forma eficiente de se lidar com as incertezas de eventos da vida, desde os mais corriqueiros até os mais derradeiros, nos proporcionando uma (falsa) sensação de controle sobre o imprevisível (e, muitas vezes, inevitável). A criação de explicações pouco racionais como, alterar o número do voo, fazer mais manutenção na aeronave, alterar a hora de partida do voo, ou outros tipos de pensamento contrafactuais, fazem parte da estratégia para criar uma sensação de possibilidade de segurança e controle de eventos imprevisíveis. A própria ideia de uma profecia, que permite alterar o curso dos acontecimentos, é motivada por esta necessidade de ‘controlar’ o ‘incontrolável’ e, assim, garantir segurança psicológica para lidar com o imprevisível. Ainda sobre as falas nas reportagens veiculadas é interessante observar como esta necessidade atinge a todos nós, inclusive os mais céticos. Muitos dos que voaram no voo em questão diziam não acreditar na profecia (ou em profecias de maneira geral), mas mesmo assim se conformaram e comportaram-se como se aquela pudesse ser sua derradeira viagem de avião (CORREIO).

A incerteza e a aleatoriedade fazem parte dos fenômenos que determinam nossas vidas, nosso comportamento e a natureza. Nossa dificuldade centra-se no fato de sermos entidades preparadas cognitivamente (graças a um cérebro que passou por milhares de anos de evolução para chegar as características que possui hoje) a evitar ou minimizar as incertezas do mundo à nossa volta, de forma a permitir estabilidade e segurança psicológica, algo que necessitamos. Por mais que desejemos ou tenhamos uma visão de homem que preze por uma ideia de racionalidade, o fato é que nos últimos 40 anos as ciências comportamentais (inclua aí na lista psicologia, economia e outras) têm demonstrado que esta visão de homem racional é incompleta e que boa parte dos nossos processos psicológicos e do nosso comportamento é fruto de mecanismos não-racionais. Esta é uma das características do funcionamento da cognição humana. Em situações extraordinárias, como a incerteza apresentada perante o momento do fim da existência, soluções ‘extraordinárias’ na busca de controle sobre a incerteza são a solução psicológica que possuímos para seguir em frente!

 

A surra da seleção brasileira deveria ser um bom motivo para mudanças culturais no Brasil

Escrevo este post no calor do dia 09/07/2014, o dia seguinte ao maior vexame já vivido pela seleção brasileira em toda a sua história.

A copa deste ano é extremamente especial pelo fato de ser no Brasil, em um momento econômico e de política internacional favorável ao país. Bem, todos vemos as consequências disto desde o ano passado, quando as manifestações levaram milhões às ruas clamando por mudanças. A derrota retumbante e inconteste de nossa seleção fecha um ciclo e me parece que este desfecho é o mais apropriado possível para clamar por mudanças mais relevantes na cultura brasileira. Temos muitas fortalezas, mas também muitas fraquezas em nossa cultura e na forma como ela determina o comportamento de nossos concidadãos. Sem uma transformação ruptiva do que nos mazela não vejo como o clamor de mudança, retumbado nas ruas pelas manifestações populares, possa ocorrer.
A derrota acachapante e sua consequência no comportamento dos brasileiros me faz acreditar na necessidade da mudança das prioridades de identidade social do brasileiro. O futebol e a seleção brasileira, em particular, ocupam uma porção muito significativa da forma como nos identificamos. Já passou da hora das novas gerações cederem espaço para que outras dimensões se tornem socialmente relevantes, permitindo formar identidades sociais em que o futebol não é foco central. Temas consideravelmente mais relevantes para o Brasil seriam a ciência e as artes, fontes inestimáveis de construção de identidades inquisitivas e motivadas para a produção de transformações sociais. Tanto melhor seria ter um garoto com lágrimas nos olhos pelo maravilhamento da compreensão da dimensionalidade do universo e da maneira como a vida se formou do que pela vitória do seu time em uma frugal partida de futebol.
Não estou propondo aqui um esquecimento do futebol como elemento de identificação social, de estruturação de Selfs. Muito menos uma contraposição do futebol às artes ou à ciência. É uma impossibilidade se ‘apagar’ este tema da cultura brasileira. O futebol continuará sendo um tema fundamental para a cultura planetária por mais algumas gerações, até que outro entretenimento de massa tome o seu lugar. O que estou propondo é que troquemos o grau de prioridade deste tema por outros, que seguramente trarão consequencias muito mais positivas, relevantes e duradouras para a vida dos atuais e futuros cidadãos de nosso país do que a frugal e momentânea euforia da vitória alcançada por sua seleção nacional em uma copa do mundo.
Fica aqui o convite para que se criem oportunidades de socialização de nossas crianças que garantam a formação de identidades sociais fortes nestas outras temáticas. Fica aqui o convite para uma perspectiva pessoal de um universo grande (veja meu último post), que seja capaz de preencher os aspectos mais relevantes das identidades sociais.

Que o eventual sofrimento devido à derrota vexaminosa seja motor de mudança relevante em nossa sociedade.

Que Universo você quer: Grande ou pequeno?

Hoje consegui assistir o 13º e último episódio da nova edição de Cosmos. Como da primeira vez, lá nos anos de 1980, o recado foi direto ao coração: a verdadeira epifania da ciência.

A busca por respostas intrigantes das mais básicas e elementares perguntas humanas é fantasticamente sintetizada no que deve (ou deveria) ser a principal motivação da ciência: conhecer! questionar! responder! perguntar! conhecer!

Imaginar o senso de unicidade que esta função de existência possui para toda e qualquer área do conhecimento é fantástico. Por mais que nos cerquemos das pseudo-barreiras de nossas disciplinas para nos afirmar, na verdade as mesmas não existem. A evidência concreta de que somos fruto do pó das estrelas e de que a psicologia nada mais é do que uma consequencia disto tudo nos dá muito mais força para a busca do desvelar das questões mais elementares, mais básicas sobre a natureza humana, seguindo os mesmos princípios que norteam a ciência (também descrito no último episódio da série): (1) questione a autoridade: (2) Pense por você mesmo; (3) teste ideias pelas evidências adquiridas por meio da observação e da experimentação; (4) Siga a evidência para onde ela apontar; e (5) Lembre-se que você pode estar errado.

Uma visão ampla de um cosmos gigante nos dá muitas coisas, mais uma, em particular, é o fundamento de tudo o que fazemos: humildade sobre o que realmente sabemos (Sócrates já disse isto há muito tempo – só sei que nada sei – e Almir Sater e Renato Teixeira refrasearam de forma maravilhosa na letra de “Tocando em frente”). Muitos anos depois da primeira apresentação da série original, Carl Salgan escreveu um dos textos mais inspirados sobre a função da ciência que já vi em minha vida e o transcrevo aqui (conforme apresentado no último episódio da série):
http://www.thepaleblue.org/wp-content/uploads/2012/07/the-pale-blue-dot-header-sm.gif
PÁLIDO PONTO AZUL
“Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada “superestrela”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali – em um grão de pó suspenso num raio de sol.
A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.
As nossas posturas, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.
A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Acomodar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto.
Já foi dito que astronomia é uma experiência de humildade e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o “pálido ponto azul”, o único lar que conhecemos até hoje.” (CARL SAGAN)

Este senso de humildade me parece ser o principal motivador do sentido de existir da ciência, o que nos faz buscar novas respostas a novas perguntas, ou novas e mais eficientes respostas para perguntas antigas. A ciência se caracteriza por explicações da verdade que são transitórias (umas mais, outras menos), ou explicações da verdade que são constantemente questionadas para nos possibilitar construir novas e melhores alternativas explicativas para o que nos instiga e novas e inventivas soluções para nos colocar em lugares outrora inexploráveis.

Se há um possível conselho para as novas gerações que devem se aventurar por este caminho é de não se acreditar ou buscar verdades prontas ou finais, muito menos autoridades que possam dar tais respostas. O caminho é tortuoso como o da escalada em uma montanha de cascas de ovos. É necessário que se tenha consciência de que trabalhamos em conjunto, por mais que se pareça que as mentes, que trazem respostas fantásticas para questões fabulosas, são genialidades independentes. Na verdade elas apenas existem graças a outros que lhes antecederam ou que lhes são contemporâneos.

Replicação experimental em Psicologia: ManyLabs Project

download

Motivado pela pré-publicação feita ontem do projeto ManyLabs no site da OSF, bem como pela repercussão do mesmo em blogs especializados em ciência da Nature e National Geographic resolvi publicar mais um post do meu blog especificamente sobre este tema tão caro na ciência, mas raramente realizado em Psicologia.

A ciência é auto-corretiva e seus resultados são largamente colocados sob escrutínio da comunidade científica. Estas são duas afirmações tidas como verdadeiras e provavelmente tratadas como características da ciência no mais introdutório dos cursos sobre método científico. Mas, pelo que tudo indica, uma parte muito relevante deste trabalho de auto-correção tem sido deixado de lado na Psicologia: a replicação. Vários são os motivos que levam a uma primazia de linhas editoriais nos principais journals da área que esperam exclusivamente por resultados significativos (baseado na lógica do teste de hipótese que, em uma grande quantidade de vezes, são falsos positivos) e que tragam explicitamente algum tipo de novo conhecimento e, parece, que quanto mais ‘sexy’ for este novo conhecimento melhor. Isto, aliado a práticas de gestão acadêmica que favorecem este tipo de produção relegam ao desprezo as ações de replicação, essenciais em uma real agenda positiva para a Psicologia.

Esta recuperação da importância de ações de replicação não é uma discussão recente na área, mas ganhou um reforço significativo nos últimos três anos graças a ocorrência de casos escabrosos de fraude, do viés de publicações ‘positivas’ devido ao critério exclusivo baseado no teste de hipótese nula, o emprego de práticas questionáveis de pesquisa por boa parte da comunidade científica, entre outras questões relacionadas (deixo ao final deste post uma lista de textos publicados em periódicos científicos que tem discutido aprofudadamente estas questões).

O que é gratificante ver neste momento de amadurecimento da ciência psicológica são as mudanças já em curso e o desenvolvimento de iniciativas que buscam implementar replicações de efeitos experimentais já publicados. No caso específico do Manylabs foi extremamente gratificante ter composto a equipe de uma iniciativa única de replicação, que evolveu 12 países e 36 laboratórios executando o mesmo protocolo de replicação experimental. Lamentavelmente fomos o único laboratório brasileiro a tomar parte na iniciativa. Isto é lamentável porque somos uma nação subestudada em relação a grande maioria dos efeitos experimentais em Psicologia, efeitos estes que, invariavelmente, ensinamos em nossas salas de aula. Seria muito salutar que a comunidade brasileira de psicologia se envolvesse em tais iniciativas (seja como proponentes ou como colaboradores), não só por serem possibilidades de cooperação internacional, mas por mostrarem amadurecimento da pesquisa feita por aqui, contribuindo para uma melhor compreensão de como os processos psicológicos ocorrem em ‘nossos’ participantes.

O modelo do projeto Manylabs é uma prática relevante de como conduzir ações de replicação colaborativas. A forma de entrega dos procedimentos aos participantes, bem como o zelo e cuidado na composição da equipe para a adaptação de estímulos e os cuidados na coleta de dados é fundamental para um projeto com grande êxito como este. Também foi importante a escolha dos efeitos a serem replicados, que não ficaram circunscritos a uma subárea da psicologia, além das estratégias de análise de dados empregadas, úteis e focadas no que é necessário em um trabalho de replicação.

Espero que este modelo colaborativo passe a ser mais frequente na pesquisa em psicologia, não apenas para replicar efeitos já publicados, mas em trabalhos colaborativos para a robustes de novos efeitos encontrados. É óbvio que a pesquisa agora não deve se restringir a ações de replicação, pois o novo conhecimento deve continuar a ser o mote de uma ciência, mas espero que este ‘renascimento’ da importância da replicação na agenda da pesquisa psicológica, bem como o propósito de uma ciência aberta e que valorize efetivamente a produção de conhecimento e não o carreirismo dos pesquisadores, ajude a produzir uma ciência mehor.

O relatório final do Manylabs será publicado em breve no número especial sobre replicações pré-registradas do journal Social Psychology. Mas o relatório completo, assim como todos os materiais suplementares necessários aos interessados, podem ser encontrados no site do ManyLabs na OSF. Por sinal, como modelo e princípio de ciência aberta, nada mais natural do que este formato de pré-publicação.

É possível e viável realizar pesquisa experimental de replicação no Brasil, basta para tanto que os colegas encampem esta ação em suas agendas de trabalho!

Um breve update em 27/11/2013. A Science acaba de publicar uma notícia sobre o projeto também. Para acessar clique aqui.

Referencias prometidas no post:

Asendorpf, J. B., Conner, M., De Fruyt, F., De Houwer, J., Denissen, J. J. A., Fiedler, K., … Wicherts, J. M. (2013). Recommendations for Increasing Replicability in Psychology. European Journal of Personality, 27(2), 108–119. doi:10.1002/per.1919

Bakker, M., van Dijk, a., & Wicherts, J. M. (2012). The Rules of the Game Called Psychological Science. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 543–554. doi:10.1177/1745691612459060

Collaboration, O. S. (2012). An Open, Large-Scale, Collaborative Effort to Estimate the Reproducibility of Psychological Science. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 657–660. doi:10.1177/1745691612462588

Collaboration, O. S. (2013). The Reproducibility Project: A Model of Large-Scale Collaboration for Empirical Research on Reproducibility. SSRN Electronic Journal, 1–39. doi:10.2139/ssrn.2195999

Ferguson, C. J., & Heene, M. (2012). A Vast Graveyard of Undead Theories: Publication Bias and Psychological Science’s Aversion to the Null. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 555–561. doi:10.1177/1745691612459059

Fiedler, K., Kutzner, F., & Krueger, J. I. (2012). The Long Way From  -Error Control to Validity Proper: Problems With a Short-Sighted False-Positive Debate. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 661–669. doi:10.1177/1745691612462587

Francis, G. (2012). The Psychology of Replication and Replication in Psychology. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 585–594. doi:10.1177/1745691612459520

Frank, M. C., & Saxe, R. (2012). Teaching Replication. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 600–604. doi:10.1177/1745691612460686

Fuchs, H. M., Jenny, M., & Fiedler, S. (2012). Psychologists Are Open to Change, yet Wary of Rules. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 639–642. doi:10.1177/1745691612459521

Giner-Sorolla, R. (2012). Science or Art? How Aesthetic Standards Grease the Way Through the Publication Bottleneck but Undermine Science. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 562–571. doi:10.1177/1745691612457576

Gullo, M. J., & O’Gorman, J. G. (2012). DSM-5 Task Force Proposes Controversial Diagnosis for Dishonest Scientists. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 689–689. doi:10.1177/1745691612460689

Ioannidis, J. P. a. (2012). Why Science Is Not Necessarily Self-Correcting. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 645–654. doi:10.1177/1745691612464056

John, L. K., Loewenstein, G., & Prelec, D. (2012). Measuring the prevalence of questionable research practices with incentives for truth telling. Psychological science, 23(5), 524–32. doi:10.1177/0956797611430953

Klein, O., Doyen, S., Leys, C., Magalhaes de Saldanha da Gama, P. a., Miller, S., Questienne, L., & Cleeremans, a. (2012). Low Hopes, High Expectations: Expectancy Effects and the Replicability of Behavioral Experiments. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 572–584. doi:10.1177/1745691612463704

Koole, S. L., & Lakens, D. (2012). Rewarding Replications: A Sure and Simple Way to Improve Psychological Science. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 608–614. doi:10.1177/1745691612462586

Makel, M. C., Plucker, J. a., & Hegarty, B. (2012). Replications in Psychology Research: How Often Do They Really Occur? Perspectives on Psychological Science, 7(6), 537–542. doi:10.1177/1745691612460688

Nosek, B. a., Spies, J. R., & Motyl, M. (2012). Scientific Utopia: II. Restructuring Incentives and Practices to Promote Truth Over Publishability. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 615–631. doi:10.1177/1745691612459058

Pashler, H., & Harris, C. R. (2012). Is the Replicability Crisis Overblown? Three Arguments Examined. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 531–536. doi:10.1177/1745691612463401

Pashler, H., & Wagenmakers, E.-J. (2012). Editors’ Introduction to the Special Section on Replicability in Psychological Science: A Crisis of Confidence? Perspectives on Psychological Science, 7(6), 528–530. doi:10.1177/1745691612465253

Simmons, J. P., Nelson, L. D., & Simonsohn, U. (2011). False-positive psychology: undisclosed flexibility in data collection and analysis allows presenting anything as significant. Psychological science, 22(11), 1359–66. doi:10.1177/0956797611417632

Simonsohn, U. (2012). It Does Not Follow: Evaluating the One-Off Publication Bias Critiques by Francis (2012a, 2012b, 2012c, 2012d, 2012e, in press). Perspectives on Psychological Science, 7(6), 597–599. doi:10.1177/1745691612463399

Spellman, B. a. (2012). Introduction to the Special Section on Research Practices. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 655–656. doi:10.1177/1745691612465075

Stroebe, W., Postmes, T., & Spears, R. (2012). Scientific Misconduct and the Myth of Self-Correction in Science. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 670–688. doi:10.1177/1745691612460687

Tinghög, G., Andersson, D., Bonn, C., Böttiger, H., Josephson, C., Lundgren, G., … Johannesson, M. (2013). Intuition and cooperation reconsidered. Nature, 498(7452), E1–E2. doi:10.1038/nature12194

Wagenmakers, E.-J., Wetzels, R., Borsboom, D., van der Maas, H. L. J., & Kievit, R. a. (2012). An Agenda for Purely Confirmatory Research. Perspectives on Psychological Science, 7(6), 632–638. doi:10.1177/1745691612463078

Periódicos brasileiros da área médica suspensos do JCR

Caros,

Julgo relevante registrar e repercutir aqui no blog esta notícia, considerando a recente série de posts que publiquei sobre a internacionalização da Psicologia brasileira. Ainda que não sejam periódicos de nossa área, vale o alerta sobre a questão da sustentabilidade de nossos periódicos no contexto científico brasileiro.

Remeto a leitura dos seguintes posts sobre o assunto:

http://scienceblogs.com.br/eccemedicus/2013/06/suspensao-de-revistas-medicas-brasileiras/

http://cienciabrasil.blogspot.com.br/2013/06/entendendo-os-motivos-que-levaram.html#links

O quão internacional é a Psicologia feita no Brasil VI: Algumas recomendações

setasComo prometido faço este último post da série com o intuito de sugerir ações, indicar caminhos e possibilidades para a meta de internacionalização da pesquisa científica em psicologia feita no Brasil. Como forma de organizar este post vou ordenar em duas grandes categorias de ações: as voltadas para os periódicos editados no Brasil e aquelas focadas nas ações do pesquisador/grupo de pesquisa. Como o leitor do post poderá notar várias das sugestões se entrelaçam, pois, apesar de separado nestas duas categorias todas fazem parte do mesmo sistema de pesquisa e, portanto, se sobrepõem em níveis diferentes de análise. Obviamente que eu poderia elencar outros níveis/atores envolvidos neste empreendimento, como os programas de pós e as agências de fomento/avaliação. Mas decidi por ficar apenas nestes dois níveis para tornar o post mais enxuto, ainda que mais longo do que eu gostaria, e focado em questões que considero mais urgentes.

Quanto às revistas de psicologia editadas no Brasil

Como foi amplamente argumentado na série de posts, o aumento do impacto da produção mundial da psicologia brasileira (apenas considerado o indicador do número de documentos) foi expressivo principalmente a partir de 2006. Este aumento ocorreu graças a indexação, no Scopus, da maioria dos periódicos, aumentando o número total de documentos publicados por brasileiros. É notório para a comunidade que os periódicos aqui editados padecem de problemas crônicos e estruturais em suas gestões, o que traz vários problemas severos como os prazos editoriais demasiadamente longos, entre outras intercorrências. Para que estes periódicos possam competir no disputado espaço editorial internacional são  necessárias várias ações, das quais destaco algumas:

  1. Estabelecimento de linhas editoriais claras a afinadas com a pesquisa internacional: os periódicos nacionais padecem da falta de clareza de suas linhas editoriais no concernente ao que é esperado das contribuições. É necessário que editores elaborem e publiquem, periodicamente, linhas editoriais que apontem para o tipo de contribuição que é esperada (em termos teóricos, metodológicos, foco da pesquisa em processo etc etc). Esta definição vale tanto para revistas generalistas como para as que se especializaram.
  2. Estimular pesquisa focada em processo ao invés de descritiva: a observação da linha editorial dos journals mais importantes da psicologia, sejam generalistas ou especialistas, indicam claramente que a pesquisa orientada a processo é a mais valorizada e bem avaliada. Este tipo de pesquisa resulta em maior impacto na comunidade, pois é o mote de investigação da maioria dos pesquisadores. Por motivos como este é fundamental que os periódicos nacionais tenham clareza disto e incentivem a publicação de material mais qualificado e que, por consequência, tem maiores chances de produzir impacto (em termos de citações) na produção mundial.
  3. Adoção integral de padrões de normalização internacionais: para garantir inteligibilidade com pesquisadores de todo o planeta é fundamental que os periódicos brasileiros adotem de forma integral os padrões de normalização da APA, inclusive e, principalmente, na definição rigorosa dos tipos de contribuições recebidas, garantindo aderência de tudo o que é publicado a estes tipos de contribuições. Neste sentido é fundamental a compreensão completa do que isto significa. Os padrões da APA vão muito além de um conjunto de ‘regrinhas’ sobre como citar e elaborar listas de referência, mas sim uma forma de se compreender e prescrever como o conhecimento deve ser produzido. Várias revistas analisadas em nossa série ‘adotam’ as normas da APA, mas acabam fazendo uma ‘salada russa’ desta normalização quando resolvem criar indicações complementares em suas normas, fazendo exigências não coerentes com as normas ou elaborando exemplos que não são adequados com as mesmas. Isto gera confusão e passa um recado de amadorismo para a comunidade científica, afastando potenciais contribuidores de fora do país.
  4. Publicar em língua inglesa: a publicação em língua inglesa é fundamental para o aumento da importância da produção brasileira veiculada nos periódicos editados no Brasil, por isto este esforço necessita ser empreendido, até para garantir a longevidade e qualidade da indexação em bases relevantes (como o Scopus e o ISI). Mas vale lembrar que a tradução pura e simples não é condição suficiente, pois a implementação do tópico 2 desta lista é fundamental para garantir o aumento do impacto. Traduzir para o inglês pesquisa de caráter descritivo que não é orientada a processo não vai ser condição suficiente para geração de impacto.
  5. Profissionalização da gestão editorial: os periódicos carecem de uma gestão mais profissionalizada. Em parte isto é devido ao histórico dos periódicos brasileiros, inclusive os que são alvo de análise nesta série de posts, que foram criados no âmbito de programas de pós-graduação, fruto de uma política de incentivo das agências de fomento e avaliação nacionais. Os principais journals das áreas da psicologia tem uma história de editoração, em geral, vinculada à sociedades científicas e, na maioria das vezes, com apoio editorial de grandes editoras (ex: APA, SAGE, Elsevier etc etc), o que garante agilidade, infraestrutura e equipe técnica qualificada para um processo editorial profissional. De forma geral a falta de profissionalização de nossos periódicos se apresenta em indicadores como a falta de clareza da linha editorial, pareceres de decisão editorial com ausência de substancia argumentativa para tais decisões, pareceres de consultores sem uma avaliação criteriosa do mérito teórico-científico do trabalho em análise, falta de comunicação da editoria com autores, entre várias outras intercorrências que redundam, de forma geral, na demora da tramitação e na baixa qualidade do que é publicado. Há vários elementos a serem explorados neste tópico, tanto que quero publicar uma série específica de posts exclusivamente sobre o assunto de editoração. Mas o fato é que sem periódicos realmente profissionalizados não há como almejarmos que nossos periódicos logrem produzir impacto na produção internacional em psicologia.

Como já apontei em outros posts da série avalio como muito positivo a ação da psicologia brasileira em indexar em bases relevantes os periódicos aqui editados, mas ainda há muito mais o que fazer para garantir impacto. A simples indexação, sem a implementação de ações como as cinco que listo neste post, conseguiu garantir o aumento internacional da produção nacional, mas seu impacto não aumentou na mesma proporção. Se esta ação de internacionalização por meio da indexação dos periódicos continuar com a mesma política o que vamos assistir (ou o que estamos assistindo) é um ‘voo de galinha’, que funciona mas é muito curto.

Quanto aos pesquisadores e seus grupos de pesquisa

A inovação na pesquisa surge da ação de organização de linhas de investigação que os pesquisadores executam. São estes indivíduos que formam novas gerações de pesquisadores e aglutinam as ações que proporcionaram um processo de inserção internacional da pesquisa feita no país. Por isto considero este como um nível de análise privilegiado, até porque ele produz resultados diretos no que é publicado nas revistas.

  1. Foco internacional na elaboração de projetos de investigação: considerando que os projetos de investigação do pesquisador são o foco de aglutinação de suas ações é fundamental que estes sejam elaborados de forma a atender às demandas do que é ‘atraente’ do ponto de vista internacional. A análise cuidadosa e o acompanhamento constante da linha editorial e do que é publicado nos journals de maior impacto da área do pesquisador, bem como aquilo que é publicado nos journals generalistas sobre aquela área, é o mote que deve nortear a elaboração dos projetos de pesquisa, bem como os trabalhos de mestrado e doutorado sob orientação. Especial atenção deve ser dada aos métodos e estratégias de pesquisa sendo apresentados e discutidos no campo, de forma a empregar tais procedimentos nos projetos próprios. Isto aumenta a chance de veiculação do que é produzido em periódicos editados fora do país, o que é fundamental para um processo de internacionalização sustentável, o que retroalimentará as revistas nacionais com projetos alinhados com linhas editoriais de journals efetivamente internacionais.
  2. Aproveitamento de temas e nichos locais com uma perspectiva global: evidentemente não é fácil publicar em journals de alto impacto em psicologia. A produção de inovações varia de subárea para subárea mas há possibilidade de identificação de temas e nichos, característicos de diferentes campos, como forma de produção inovadora competitiva para journals internacionais. Esta possibilidade deve ser identificada e aproveitada como estratégia para atrair a atenção de editores de bons periódicos. O Brasil está em um momento de evidência no cenário internacional e aproveitar este momento para a produção de manuscritos que explorem processos sub-estudados em nosso país são oportunidades que devem ser aproveitadas. É claro que aqui sugiro que a diretriz do item 1 seja coadunada com esta segunda diretriz, de forma a produzir conhecimento em temas e métodos referendados pela comunidade internacional, produzindo elementos de inovação que atraiam a atenção de pesquisadores pelo mundo afora.
  3. Criação de oportunidades de colaboração internacional: a criação de oportunidade para colaboração internacional é uma forma de qualificar e aumentar as chances de publicação em bons periódicos internacionais. Algumas áreas da psicologia tem maior propensão a este tipo de colaboração, como é o caso da psicologia transcultural. Mas existem ações de outros campos que necessitam ser mais bem aproveitadas pelos pesquisadores brasileiros. Um exemplo que tenho identificado está circunscrito às ações de replicação de efeitos experimentais em psicologia. Desde 2011 há um movimento bastante forte e articulado na psicologia mundial que aponta para a necessidade de valorização de ações de replicação de achados experimentais, principalmente em função da falta de credibilidade da pesquisa pela falta de replicação de efeitos e do baixo incentivo do campo, como um todo, na condução de pesquisas de replicação por laboratórios independentes. Há vários periódicos de alto impacto que já mudaram suas linhas editoriais e passaram a incentivar trabalhos de replicação. Em função da necessidade de se estabelecer redes laboratoriais que trabalhem em conjunto em projetos de replicação, este tipo de ação tem grande potencial para a produção de parcerias internacionais. Este é um exemplo de como atenção clara ao debate internacional pode possibilitar ao pesquisador a identificação de nichos que venham a potencializar sua produção internacional.

Sem dúvida a psicologia feita no Brasil está se internacionalizando e há muitos pesquisadores e programas com uma inserção expressiva no cenário internacional. Mas estes pesquisadores e programas fazem parte de uma minoria e a internacionalização faz-se necessária para toda a comunidade, de forma a torná-la sustentável. Me parece que já foram dados passos importantes, mas ainda há muito a ser feito para garantir o que já foi alcançado e para permitir sustentabilidade, algo que ainda não foi atingido. A internacionalização é fundamental para a melhoria da qualidade da pesquisa em psicologia feita no Brasil, de forma a aerar o que aqui é feito, permitindo que seja lido e criticado em todo o mundo, evitando a cilada do fechamento da produção para a formação de discípulos ou subcomunidades ‘internacionais’ que nada mais fazem do que reforçar os mesmos problemas e viéses característicos de uma comunidade científica fechada em si mesmo, lida apenas pelos seus integrantes locais. Pensar a internacionalização sob uma perspectiva global é uma forma de se possibilitar aumentar a influencia do que é feito no Brasil na pesquisa mundial, aumentar nosso impacto. O caminho não é fácil mas é necessário para dar longevidade à própria psicologia brasileira. Se não tivermos uma comunidade minimamente unificada em prol deste objetivo, avaliando oportunidade e tendo como meta internacionalizar, com ações reais e efetivas para isto, é pouco provável que consigamos atingir esta meta.

Fico por aqui e espero ter contribuído um pouco nesta discussão. Tenho a expectativa de lançar em um futuro breve ao menos mais uma série de posts para tratar de outro assunto sobre C&T da psicologia no Brasil. Obrigado por sua leitura e agradeço reações e contribuições com a discussão!

NOTA: A figura que ilustra este post foi extraída, via busca no Google, do site da Revista Exame.

O quão internacional é a Psicologia feita no Brasil V: Como estão nossas revistas no Google Scholar?

scholar_logo_lg_2011

Até o momento esta série de posts baseou suas análises no Scopus. Portanto, vale dedicar um post para apresentar alguns indicadores das nossa revistas, já analisadas com base no ranking da Scimago, mas agora com base nos dados e métricas fornecidos pelo Google Scholar. Escolhi esta base porque o sistema de indexação é bastante abrangente, não sendo tão restritivo quanto o do Scopus ou do JCR, que contam as citações apenas nos documentos indexados nas bases respectivas. Lembrando que esta análise foca as seguintes revistas nacionais já analisadas em post anterior: PRC, PTP, Est. Psic., Psic. Est., PS e USP.

A métrica a ser comparada é a única fornecida para periódicos pelo Google Scholar o índice hi-5, que é o equivalente do índice h mas restringindo os resultados para os últimos 5 anos completos. Para iniciarmos com um parâmetro comparativo vamos começar pelo Hi-5 dos dois journals de Psicologia com maior SJR (veja o post anterior sobre isto). O Psychological Bulletin tem hi-5 de 81 e o Annual Review of Psychology o hi-5 é de 67. Na Figura 1 apresento os valores comparados de todos os oito periódicos.

hi_5 Google Scholar VF

Figura 1. Comparação entre os índices hi-5 do Google Scholar para os oito periódicos em análise

O primeiro aspecto que chama a atenção é a ausência de identificação da Revista Psicologia em Estudo (Psic. Est.) que não tem qualquer informação métrica na base do Google Scholar. A ferramenta permite identificar o conjunto de artigos mais citados de cada periódico. Tomando por base o artigo mais citado da PRC (Nicolaci-Costa, A.M., 2007 – com 56 citações) observa-se que nenhuma das citações é feita por veículo editado fora do país.  A mesma ocorrência se repete quando é analisado o artigo mais citado da PTP (Siqueira, M. M. M & Padovam, V. A. R., 2008 – com 53 citações), quando a grande maioria das citações é feita por veículos editados no país. Infelizmente o Scholar não dispõe (ou ao menos eu não consegui encontrar como fazê-lo) de outras ferramentas de busca que pudesse me dar indicadores de tendências das citações e de suas origens, de forma a substanciar este argumento. Mas o que quero demonstrar com este ponto é o que venho enfatizando  com a análise feita no SJR, de que o que é publicado nas revistas de psicologia editadas no país recebe apenas citações em veículos editados também no país. Existem exceções, mas são exatamente isto, a minoria das citações. Infelizmente não consegui que o Scimago me respondesse ao questionamento, que fiz por duas vezes, de como acessar a base de dados deles, para avaliação do impacto mundial da produção, retirando parte dos periódicos. Me interessa saber qual o impacto internacional da Psicologia feita no Brasil no Scopus desconsiderando os periódicos aqui editados. Se algum leitor deste post souber como fazer isto agradeço me informar, pois esta seria um indicador complementar relevante para vários dos argumentos apresentados nesta série.

Com base no conjunto de dados e argumentos que apresentei nesta série de cinco posts sobre a internacionalização, fica bastante evidente que os atores responsáveis por esta meta para a Psicologia brasileira devem avaliar o que tem sido feito nesta direção, de forma a criar condições reais e sustentáveis para a inserção internacional, de forma mais estruturada e com aumento de impacto (e não apenas da quantidade do que é produzido). É bem verdade que o tempo ainda é curto para observamos um efeito mais amplo do impacto da produção, pois como já alertei, este indicador é fundamentalmente dependente do tempo. Mas também apresentei evidências de indicadores não dependentes do tempo que apontam que a internacionalização é extremamente incipiente. Vou encerrar esta série de posts, que inauguraram este blog, no sexto post, no qual procurarei sintetizar algumas ações que julgo pertinentes para avançar no processo de internacionalização da psicologia feita no Brasil. Até lá!

O quão internacional é a Psicologia feita no Brasil IV: Como andam nossas revistas?

Considerando que nospsybull0001 posts anteriores fica patente que o incremento do impacto mundial (em quantidade de documentos) da produção científica da Psicologia feita no Brasil se deve a indexação dos periódicos editados no Brasil, nada mais lógico do que analisar indicadores destes nossos periódicos. Portanto, este é o objetivo deste quarto post da série sobre a internacionalização da pesquisa em Psicologia. A base de dados continua a mesma, as informações sobre desempenho de periódicos da Scimago.

A primeira informação que chama a atenção nesta análise é a lista de revistas editadas no Brasil, categorizadas como da área de Psicologia, indexadas no Scopus. A lista é a seguinte (com respectivo ano em que os primeiros documentos foram contados na base): Psicologia: Reflexão e Crítica – PRC (2006); Psicologia: Teoria e Pesquisa – PTP (2006); Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental – RLPF (2008); Lua Nova – Revista de Cultura e Politica (2006); Estudos de Psicologia (Natal) – EP (2006); Psicologia em Estudo – PE (2006); Psicologia e Sociedade – PS (2006); Psychology and Neuroscience – PN (2010); Psicologia Clínica – PC (2007); Psicologia: Teoria e Prática (2010); Psicologia USP (2006);  Mana: Estudos de Antropologia Social (2006);  Horizontes Antropológicos  Caderno CRH (2009); Arquivos Brasileiros de Psicologia – ABP (2009); Agora (2008); Paideia (2011). Sem entrar no mérito do critério de classificação das revistas para suas respectivas áreas que o Scopus/Scimago adota, chama a atenção que algumas das revistas tem sua identidade primária com outras áreas do conhecimento que não a Psicologia. Para efeito das análises subsequentes considerei apenas as revistas com identidade primária com a Psicologia, com avaliação em nível A1 ou A2 no Qualis de Psicologia e que foram indexadas há mais tempo na base (o que nos fornece mais dados para serem analisados), que são as seguintes: PRC, PTP, Estudos de Psicologia, Psicologia em Estudo, PS e Psicologia USP.

Considerando o indicador SJR, que refere-se ao número médio ponderado de citações que o periódico recebeu em um ano específico para os documentos publicados nos três anos prévios, todas as seis revistas brasileiras estão no terceiro e no quarto estratos da distribuição. A Figura 1 apresenta os valores SJR relativos para quatro anos em análise 2008-2011.

SJR dos dez periódicos brasileiros 2008-2011

Figura 1. Valores do SJR para os seis periódicos brasileiros em análise no período 2008-2011

No ranking geral SJR das revistas para a base corrente 2011 (coluna roxa na Figura 1), a nossa melhor colocada, PRC, está na 269ª posição e a segunda colocada, PTP, na 272ª (de um total de mais de 300 periódicos). Para se ter uma ideia o primeiro colocado neste ranking é o Annual Review of Psychology (SJR=8,14) seguido do Psychological Bulletin (SJR=5,84 – por isto a foto da capa dele neste post). Existe uma clara variação nas citações às revistas no período analisado, algumas com mais intensidade de variação e outras mais homogêneas. É necessário esperar mais tempo para a avaliação do impacto das citações às nossas revistas, mas no geral já fica evidente a necessidade de uma ação mais agressiva de internacionalização de todos os periódicos, por meio da adoção de linhas editoriais que privilegiam realmente a visibilidade e citação do que é publicado, bem como a veiculação em língua inglesa, além da profissionalização do processo editorial visando a melhoria da qualidade das publicações (sobre estas sugestões, pretendo explorar melhor o tema da editoração científica nas revistas de Psicologia em uma série específica de posts).

Como elemento comparativo analisei os indicadores médios do SJR dos seis melhores periódicos de alguns países, na área de Psicologia e comparei com o SJR médio de 2011 dos seis periódicos Brasileiros que são analisados neste post. Veja os resultados na Figura 2.

SJR médio países

Figura 2. Valores médios do SJR-2011  para os seis periódicos mais bem classificados de cada país na área de Psicologia (OBS: México e Colômbia tem apenas 4 periódicos indexados)

Esta análise apenas ressalta os indicadores de impacto muito baixos de nossos periódicos, que estão classificados nos dois estratos inferiores da avaliação do SJR.

A colaboração internacional é um indicador importante sobre a internacionalização da produção, como já foi discutido em outros posts desta série. A Figura 3 apresenta os indicadores de colaboração internacional nos periódicos em análise na série 2006-2011.

Colaboração Internacional seis periódicos brasileiros

 Figura 3. Percentual de artigos autorados por mais de um país para as seis revistas na série entre 2006-2011

Como pode se observar a taxa média das revistas é baixa (10,5%), com dois picos de colaboração da Estudos de Psicologia em 2006 e 2007. Se estes picos são retirados a média de colaboração cai expressivamente (7,5%). Nos três últimos anos da série o percentual das colaborações internacionais diminui , o que deveria ter comportamento contrário, pois se esperaria maior efeito dos investimento da internacionalização em anos mais recentes, devido ao esforço que tem sido empreendido pela comunidade para alcançar esta meta.

A avaliação do número de documentos citados em um periódico é importante para se avaliar o impacto do mesmo na área. A Figura 4 apresenta informações sobre o número de documentos citados.

% de docs publicados citados para periódicos nacionais

Figura 4. Percentual de artigos citados ao menos uma vez nos três últimos anos, em relação ao ano de referência na figura, considerando o número total de documentos publicados no mesmo período

Pode-se notar um aumento gradual na citação a documentos ao longo da série. De forma geral a média de ao menos uma citação a documentos é baixa, pois mais de 3/4 dos documentos publicados não recebem nenhuma citação. A citação aos artigos é um indicador fundamental da relevância do que é publicado e é uma informação essencial da qualidade do periódico. Ao que tudo indica nossas revistas tem produzido muito mais informação que não gera impacto do que informação que recebe alguma atenção qualificada da comunidade científica.

Se a política de internacionalização que nossa comunidade vai adotar é por meio da indexação dos periódicos editados no Brasil, então o investimento na melhoria da qualidade do que é publicado por nossos periódicos tem que mudar substancialmente, além da veiculação ser feita integralmente em Inglês. Por outro lado há alternativas para este processo de internacionalização. Veja um exemplo: A China tem apenas 2 periódicos indexados no Scopus na área de Psicologia, mas é o 14º com maior número de documentos publicados em 2011 (o Brasil é o 10º). Se rankearmos pelo fator H a China basicamente empata com o Brasil (22º China contra 21º Brasil). O investimento de nosso colega BRIC é na publicação em periódicos editados por outros países, diferente da estratégia que o Brasil tem adotado. Não acho que tenha nada de mal em indexarmos periódicos brasileiros em grandes bases, mas não dá para deixar de investir na internacionalização da pesquisa feita no Brasil por meio da publicação em periódicos de outros países. As duas ações tem que andar em conjunto, até porque uma potencializa a outra.

Há muito a ser trilhado e espero contribuir nos próximos posts desta série e nos posts da séria sobre Editoração Científica (quando der tempo o farei) sobre este assunto da qualidade do que publicamos em nossos periódicos.

O quão internacional é a Psicologia feita no Brasil III: Colaboração Internacional e Impacto Mundial

Paisagem-Bandeira-do-Brasil

Dando sequencia a discussão sobre a internacionalização da produção científica da Psicologia brasileira quero, neste post, abordar alguns indicadores e aproveitar para fazer uma análise comparativa dos mesmos com outras nações. Os indicadores são os seguintes: a colaboração internacional dos artigos publicados em periódicos indexados no Scopus; a representatividade percentual da produção mundial em Psicologia que diz respeito ao Brasil; e o Fator H. Como explicado no primeiro post da série, a base de dados continua sendo a corrente fornecida pelo Scimago e, em sua maioria, com análises restritas à Psicologia, unicamente.

A colaboração internacional é um indicador relevante de internacionalização da produção científica, pois ela aponta para a colaboração na elaboração de trabalhos acadêmicos feitos por pesquisadores e laboratórios de diferentes nacionalidades. A Scimago nos brinda com este indicador, que não é suscetível ao problema da passagem do tempo para se concretizar, como é o caso das citações aos artigos. A Figura 1 deste post apresenta o percentual da produção de cada ano que foi assinado em colaboração por autores provenientes de mais de um país.

% de autorias internacionais

Figura 1. Percentual de documentos publicados e autorados por pesquisadores provenientes de mais de um país com comparação entre: Brasil, Chile, Holanda, México e China.

Como pode ser observado na Figura 1 o Brasil mantém uma taxa de colaboração internacional acima dos 30 %, chegando aos 50 % em alguns anos entre 1996-2005. A partir de 2006 esta taxa cai para 20% ou menos. O motivo está associado, provavelmente, à indexação dos periódicos brasileiros no Scopus, como já apresentado nos posts anteriores. A Holanda, país já utilizado para comparações anteriormente, inicia a série com taxas da ordem de menos de 30% e aumenta para valores acima de 40% nos sete últimos anos da série. Nossos ‘companheiros’ latinos (i.e. Chile e México) tem taxas médias mais elevadas, particularmente o México. Chama a atenção na Figura 1 o elevado percentual de colaboração internacional da China (primeira vez que trago um BRIC para comparação aqui), que raramente está abaixo dos 60% na série histórica. Como elemento adicional de comparação apresento na Figura 2 a importância de cada um desses países para a produção mundial em Psicologia. Nossa colaboração internacional caiu de forma inversamente proporcional ao aumento de nossa produção total mundial. Muito provavelmente isto é efeito da indexação dos periódicos brasileiros da área de Psicologia no Scopus em 2006, o que ressalta o caráter de menor colaboração internacional na autoria do que é veiculado pelos periódicos editados no país.

% produção internacional brasil chile holanda mexico e china

Figura 2. Percentual da produção mundial em Psicologia de Brasil, Chile, Holanda, México e China.

Como pode ser observado na Figura 2 o Brasil ocupa a segunda posição em relação aos quatro outros países, isto de forma mais explícita após nossa ‘explosão’ de produção pós 2006. A Holanda é expressivamente mais produtiva que os demais, pois ocupa a sexta posição mundial na produção em Psicologia. Ainda nesta mesma toada é interessante comparar o percentual da produção brasileira mundial em Psicologia com a produção nacional em outras áreas do conhecimento. A Figura 3 apresenta estas comparações.

% produção internacional brasileira total e em quatro áreas

Figura 3. Percentual da produção mundial brasileira em Psicologia, Administração, Matemática, Agricultura e Biologia e o percentual total da produção científica brasileira.

Esta Figura 3 é elucidativa em alguns aspectos. A produção mundial em Psicologia ajusta-se, depois de 2006, quase que perfeitamente à produção científica brasileira como um todo, pois o percentual é bastante parecido. A tendência de crescimento aumentado da participação na produção mundial vista na Psicologia é semelhante ao que ocorreu nas Ciências Agrárias e Biologia e na Administração. O salto da produção nas Ciências Agrárias e Biologia é muito mais expressivo do que na Administração. O percentual relativo das Ciências Agrárias é bem acima da média da produção total brasileira ao longo de toda a séria histórica. Não sei dizer se este aumento de produção em Administração e Ciências Agrárias tem haver com o mesmo efeito do que ocorreu com a Psicologia a partir de 2006, mas arriscaria dizer que está é uma hipótese plausível para explicar este incremento da produção.

Para fechar este post e retornar a um indicador derivado de citações gostaria de apresentar uma comparação relativa entre nações para o Índice H. Este indicador pode ser aplicado a qualquer nível de análise em cientometria (cientista, periódico, país, instituição de pequisa etc etc). Ele gera um indicador que refere-se ao número H de artigos que receberam o mesmo número H de citações. Um país com H=100 significa que tem 100 artigos que receberam ao menos 100 citações. Esta é uma forma de combinar a quantidade da produção com a qualidade da mesma, sendo esta última aferida por um número mínimo de citações recebidas. Para mais informações sobre o índice H clique aqui. A Figura 4 apresenta a comparação do índice H para 10 países.

Fator H para Psicologia de 10 nacoes

Figura 4. Valores do índice H para dez países na produção exclusivamente da área de Psicologia

O Brasil está na 21ª posição do índice H na área de Psicologia, com um H=48, exatamente como a China (ainda que a China tenha a metade de nossa produção em termos de total de documentos publicados). Os EUA tem um H=332 (maior do que o H de toda a produção científica brasileira que é de 285) na área de Psicologia, o que o deixa em um patamar estratosférico, impossível para ser comparado. O fator H dá uma indicação mais clara do impacto da produção científica brasileira em Psicologia, pois apesar de sermos o 13º em quantidade de documentos produzidos, caímos 8 posições quando ordenamos a produção pelo índice H.

Bem, ao que tudo indica e como já salientado em outros posts, nossa produção total aumentou, mas os indicadores relativos não caminham na mesma direção. Aumentamos a participação na ciência internacional, mas diminuímos drasticamente as colaborações internacionais e estamos mantendo um patamar de números de artigos citados relativamente baixo, bem menor do que países com comunidade científica de Psicologia menor que a nossa (ex: Nova Zelândia – H=70; Canadá H=158).

Espero nos próximos dias publicar mais um post nesta série. Até lá!