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Divulgar ciência: O caso das pautas nas redações

É inegável que divulgar o conhecimento ao grande público é uma tarefa essencial para a ciência como empreendimento, e para os cientistas como empreendedores. Este assunto não é novidade e muitos autores já se debruçaram sobre esta questão. Uma sugestão de leitura que posso dar sobre o tema é a proposta de disseminação dupla defendida como forma do trabalho do cientista, como apresentado por Robert Sommer neste artigo aqui. Sou extremamente favorável a esta proposta e há fortes indícios que boa parte dos cientistas, sobretudo aqueles brasileiros e em especial os que trabalham no Brasil, tem grande resistência em fazer divulgação para o grande público, por diversos fatores. Esta questão da divulgação tem se tornado ainda mais premente no Brasil e no mundo, pelo aumento crescente do interesse da população sobre informação científica acessível, atualizada e de qualidade. Isto deveria ser visto pelos cientistas como uma excelente janela de oportunidade para divulgar cada vez mais o seu trabalho, alcançando um número maior de leitores, criando a possibilidade de atrair mais olhares e mentes interessadas em pensar a ciência e, mais do que isto, em fazer ciência. A manutenção de um alto interesse sobre a ciência em uma sociedade é fundamental para que novas gerações possam se envolver no empreendimento. Afinal de contas a ciência necessita disto para existir, se reinventar e seguir o seu caminho. Atualmente a facilidade para a produção de diferentes tipos de comunicação científica facilita ainda mais o trabalho de disseminação dupla. Então, caro colega cientista, as justificativas para não divulgar seu trabalho, ideias e contribuições ao grande público são menos justificáveis hoje.

Mas é bem verdade que não apenas a estratégia de disseminção dupla é a única forma de se atingir um amplo público. Os meios de comunicação (esta é uma concepção em mudança hoje, mas aqui me refiro a jornais, revistas, canais de TV, entre outros) também tem um papel importante no processo de divulgação da ciência. Estes meios são aliados importantes na realização deste processo, mas tem sido muito tímidos ou equivocados em muitas de suas estratégias sobre como fazê-lo. Faço esta apreciação com base na experiência acumulada, já há alguns anos, em ser sistematicamente procurado por diferentes redações para emitir opinião sobre assuntos diversificados. Me parece que o problema, neste caso específico que descrevo, está na forma como as ideias das pautas são criadas dentro da redação. Como psicólogo social em geral sou procurado por diversos jornais, revistas e TVs, via assessoria de imprensa de minha universidade, a expressar minha opinião sobre diversos temas. Me parece que muitos destes assuntos são pensados por profissionais que trabalham em editoria que compactou-se chamar de ‘comportamento’, uma ideia, até onde me é dado saber, criada dentro de redações de veículos brasileiros há algumas décadas atrás. Na grande maioria das vezes minha resposta em contribuir é: não! Se você leu este post até aqui já deve ter percebido que sou favorável à divulgação, e julgo esta uma tarefa de extrema importância. Mas minha resposta negativa se deve, invariavelmente, a um motivo: a pauta, como se apresenta, não tem pé-nem cabeça, ou quando um pouco melhor, não tem clareza sobre seu propósito. No geral temas propostos acabam por potencializar, se retratados desta forma, ou uma visão estereotipada sobre o comportamento humano ou uma incompreensão sobre a forma como o cientista realmente é capaz em dar sentido à realidade que nos rodeia.

As ideias que motivam pautas precisam ser melhor elaboradas e qualificadas. Para isto vejo apenas uma saída: os profissionais que estão nas redações precisam se apropriar mais do conhecimento científico na sua área de editoria. Quiçá as redações deveriam contar com profissionais com boa formação em ciência para auxiliar na elaboração de pautas, nas diferentes editorias. O jornalismo científico, como tem ficado conhecida uma área específica (ainda que me pareça que todo jornalista deveria se preocupar de forma central com boa fonte de informação científica para elaborar matérias em sua área de editoria, por isto o adjetivo  ‘científico’ soa estranho, muitas vezes), ainda engatinha no Brasil. Até onde saiba ela é recente e ainda pouco desenvolvida, seja no campo de atuação, seja na formação universitária. Mas ainda assim consigo verificar, em vários dos meios de comunicação que acompanho, que há boas iniciativas neste sentido. Ou de jornalistas que se classificam como divulgadores da ciência, tendo isto como pauta específica. Ou colunistas que fazem um excelente trabalho para divulgar conhecimento científico de ponta, daquele tipo que estudamos no laboratório para subsidiar nossa própria pesquisa. Há bons exemplos, mas são ainda poucos! Me parece que a qualificação das redações para pensar em pautas bem elaboradas do ponto de vista científico, seja na área de ‘comportamento’ ou em nas outras editorias, seria uma excelente forma de minimizar percalços ou a má divulgação de conhecimento científico atual e relevante. Vale lembrar que uma má divulgação tem efeito pior do que a ausência de divulgação, servindo muito mais como um desserviço para a educação científica geral da população.


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