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Quando a profecia falha: Como viver em um mundo de incertezas?

Esta semana uma notícia foi publicada em vários meios de comunicação (ex: G1, FOLHA, CORREIO). Um vidente teve uma premonição sobre a queda de um voo da TAM entre São Paulo e Brasília no dia 26/11/2014. As notícias dão conta que ele registrou a premonição em cartório. O conhecimento prévio sobre a dita premonição teve muita repercussão. Por exemplo, o síndico do prédio, em que supostamente o avião cairia, comunicando a profecia aos condôminos, a mudança do número do voo por parte da cia aérea, entre outras. Tomei conhecimento destas notícias em diferentes meios de comunicação, como os que citei neste post.

Mas o que me chama a atenção neste caso diz respeito aos mecanismos psicológicos envolvidos neste tipo de evento e este é o objetivo deste post. São vários e fundamentais para entender a irracionalidade humana. Ainda que a maioria de nós apregoe uma visão do ser humano como entidade racional, eventos como estes ressaltam justamente a enorme influencia da irracionalidade como aspecto inerente à nossa psicologia. Neste caso particular com o uso de mecanimos que buscam dar sentido e previsibilidade ao mundo ao nosso redor.

A análise das explicações post facto do próprio vidente deixam claro o funcionamento de um mecanismo psicológico poderoso que os psicólogos sociais descreveram há várias décadas e que chamamos de dissonância cognitiva. Com a falha da profecia os argumentos atribuídos ao vidente (nesta reportagem) escancaram o funcionamento do mecanismo, inclusive produzindo uma estratégia de autopromoção e, consequentemente, reforçando a própria premonição, graças a divulgação antecipada da mesma. Isto porque a explicação para o não ocorrido, daquilo que fora profetizado, foram as providências tomadas pela cia aérea, como alteração do número do voo, troca da aeronave, intensificação de manutenção, etc etc. Profecias que falham são uma situação natural largamente utilizadas para se compreender a dissonância provocada nos que acreditavam e a propagavam. Lembram que o mundo iria acabar há dois anos atrás? Um colega meu, Fabio Iglesias, publicou um artigo de divulgação muito oportuno sobre este fenômeno, exatamente no dia 21/12/2012. É de divulgação e curto. Recomendo fortemente a leitura para se compreender este fenômeno clicando aqui.

Mas um outro aspecto, fortemente associado a estas ocorrências proféticas, é a tentantiva incessante de se conviver com a imprevisibilidade. Na verdade, muito da motivação de uma profecia, está balizada na necessidade de ‘prever’ o ‘imprevisível’ e, assim, construir uma percepção de controle sobre as incertezas. Na grande maioria dos casos estas profecias versam sobre temas que dizem respeito a ocorrências dramáticas, que envolvem situações de grande gravidade, como desastres e catástrofes que podem provocar a morte de muitos ou o extermínio da espécie (e.g. fim do mundo). Já parou para pensar porque as vidências e premonições sobre fatos corriqueiros, como o estacionamento do shopping ou a fila para o cinema, não são feitas e/ou não ganham atenção? Um dos fatores mais importantes sobre a relevância e a proporção que estas premonições tomam diz respeito à saliência da morte, do fim da existência, que tais eventos trazem ao foco da nossa atenção. Este é o motivo que dá sentido às profecias, bem como à sua popularidade. O ponto central é que a morte é certa e derradeira, mas o momento de sua ocorrência não!

A produção da saliência da morte e da incerteza de quando ocorrerá nos remete a mecanismos psicológicos de busca de previsibilidade e, consequentemente, conforto e estabilidade psicológica. Como psicólogos sociais somos muito interessados em compreender como a irracionalidade humana funciona como um dos determinantes do nosso comportamento. Para compreender este aspecto descrevemos, ao longo da história da disciplina, vários mecanismos para tentar compreender tais determinantes. Um que é muito afeto a este tema das profecias é a Crença no Mundo Justo – crença implícita de que o mundo é um lugar justo. O mecanismo que está por trás deste processo psicológico é uma forma eficiente de se lidar com as incertezas de eventos da vida, desde os mais corriqueiros até os mais derradeiros, nos proporcionando uma (falsa) sensação de controle sobre o imprevisível (e, muitas vezes, inevitável). A criação de explicações pouco racionais como, alterar o número do voo, fazer mais manutenção na aeronave, alterar a hora de partida do voo, ou outros tipos de pensamento contrafactuais, fazem parte da estratégia para criar uma sensação de possibilidade de segurança e controle de eventos imprevisíveis. A própria ideia de uma profecia, que permite alterar o curso dos acontecimentos, é motivada por esta necessidade de ‘controlar’ o ‘incontrolável’ e, assim, garantir segurança psicológica para lidar com o imprevisível. Ainda sobre as falas nas reportagens veiculadas é interessante observar como esta necessidade atinge a todos nós, inclusive os mais céticos. Muitos dos que voaram no voo em questão diziam não acreditar na profecia (ou em profecias de maneira geral), mas mesmo assim se conformaram e comportaram-se como se aquela pudesse ser sua derradeira viagem de avião (CORREIO).

A incerteza e a aleatoriedade fazem parte dos fenômenos que determinam nossas vidas, nosso comportamento e a natureza. Nossa dificuldade centra-se no fato de sermos entidades preparadas cognitivamente (graças a um cérebro que passou por milhares de anos de evolução para chegar as características que possui hoje) a evitar ou minimizar as incertezas do mundo à nossa volta, de forma a permitir estabilidade e segurança psicológica, algo que necessitamos. Por mais que desejemos ou tenhamos uma visão de homem que preze por uma ideia de racionalidade, o fato é que nos últimos 40 anos as ciências comportamentais (inclua aí na lista psicologia, economia e outras) têm demonstrado que esta visão de homem racional é incompleta e que boa parte dos nossos processos psicológicos e do nosso comportamento é fruto de mecanismos não-racionais. Esta é uma das características do funcionamento da cognição humana. Em situações extraordinárias, como a incerteza apresentada perante o momento do fim da existência, soluções ‘extraordinárias’ na busca de controle sobre a incerteza são a solução psicológica que possuímos para seguir em frente!

 


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