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O quão internacional é a Psicologia feita no Brasil VI: Algumas recomendações

setasComo prometido faço este último post da série com o intuito de sugerir ações, indicar caminhos e possibilidades para a meta de internacionalização da pesquisa científica em psicologia feita no Brasil. Como forma de organizar este post vou ordenar em duas grandes categorias de ações: as voltadas para os periódicos editados no Brasil e aquelas focadas nas ações do pesquisador/grupo de pesquisa. Como o leitor do post poderá notar várias das sugestões se entrelaçam, pois, apesar de separado nestas duas categorias todas fazem parte do mesmo sistema de pesquisa e, portanto, se sobrepõem em níveis diferentes de análise. Obviamente que eu poderia elencar outros níveis/atores envolvidos neste empreendimento, como os programas de pós e as agências de fomento/avaliação. Mas decidi por ficar apenas nestes dois níveis para tornar o post mais enxuto, ainda que mais longo do que eu gostaria, e focado em questões que considero mais urgentes.

Quanto às revistas de psicologia editadas no Brasil

Como foi amplamente argumentado na série de posts, o aumento do impacto da produção mundial da psicologia brasileira (apenas considerado o indicador do número de documentos) foi expressivo principalmente a partir de 2006. Este aumento ocorreu graças a indexação, no Scopus, da maioria dos periódicos, aumentando o número total de documentos publicados por brasileiros. É notório para a comunidade que os periódicos aqui editados padecem de problemas crônicos e estruturais em suas gestões, o que traz vários problemas severos como os prazos editoriais demasiadamente longos, entre outras intercorrências. Para que estes periódicos possam competir no disputado espaço editorial internacional são  necessárias várias ações, das quais destaco algumas:

  1. Estabelecimento de linhas editoriais claras a afinadas com a pesquisa internacional: os periódicos nacionais padecem da falta de clareza de suas linhas editoriais no concernente ao que é esperado das contribuições. É necessário que editores elaborem e publiquem, periodicamente, linhas editoriais que apontem para o tipo de contribuição que é esperada (em termos teóricos, metodológicos, foco da pesquisa em processo etc etc). Esta definição vale tanto para revistas generalistas como para as que se especializaram.
  2. Estimular pesquisa focada em processo ao invés de descritiva: a observação da linha editorial dos journals mais importantes da psicologia, sejam generalistas ou especialistas, indicam claramente que a pesquisa orientada a processo é a mais valorizada e bem avaliada. Este tipo de pesquisa resulta em maior impacto na comunidade, pois é o mote de investigação da maioria dos pesquisadores. Por motivos como este é fundamental que os periódicos nacionais tenham clareza disto e incentivem a publicação de material mais qualificado e que, por consequência, tem maiores chances de produzir impacto (em termos de citações) na produção mundial.
  3. Adoção integral de padrões de normalização internacionais: para garantir inteligibilidade com pesquisadores de todo o planeta é fundamental que os periódicos brasileiros adotem de forma integral os padrões de normalização da APA, inclusive e, principalmente, na definição rigorosa dos tipos de contribuições recebidas, garantindo aderência de tudo o que é publicado a estes tipos de contribuições. Neste sentido é fundamental a compreensão completa do que isto significa. Os padrões da APA vão muito além de um conjunto de ‘regrinhas’ sobre como citar e elaborar listas de referência, mas sim uma forma de se compreender e prescrever como o conhecimento deve ser produzido. Várias revistas analisadas em nossa série ‘adotam’ as normas da APA, mas acabam fazendo uma ‘salada russa’ desta normalização quando resolvem criar indicações complementares em suas normas, fazendo exigências não coerentes com as normas ou elaborando exemplos que não são adequados com as mesmas. Isto gera confusão e passa um recado de amadorismo para a comunidade científica, afastando potenciais contribuidores de fora do país.
  4. Publicar em língua inglesa: a publicação em língua inglesa é fundamental para o aumento da importância da produção brasileira veiculada nos periódicos editados no Brasil, por isto este esforço necessita ser empreendido, até para garantir a longevidade e qualidade da indexação em bases relevantes (como o Scopus e o ISI). Mas vale lembrar que a tradução pura e simples não é condição suficiente, pois a implementação do tópico 2 desta lista é fundamental para garantir o aumento do impacto. Traduzir para o inglês pesquisa de caráter descritivo que não é orientada a processo não vai ser condição suficiente para geração de impacto.
  5. Profissionalização da gestão editorial: os periódicos carecem de uma gestão mais profissionalizada. Em parte isto é devido ao histórico dos periódicos brasileiros, inclusive os que são alvo de análise nesta série de posts, que foram criados no âmbito de programas de pós-graduação, fruto de uma política de incentivo das agências de fomento e avaliação nacionais. Os principais journals das áreas da psicologia tem uma história de editoração, em geral, vinculada à sociedades científicas e, na maioria das vezes, com apoio editorial de grandes editoras (ex: APA, SAGE, Elsevier etc etc), o que garante agilidade, infraestrutura e equipe técnica qualificada para um processo editorial profissional. De forma geral a falta de profissionalização de nossos periódicos se apresenta em indicadores como a falta de clareza da linha editorial, pareceres de decisão editorial com ausência de substancia argumentativa para tais decisões, pareceres de consultores sem uma avaliação criteriosa do mérito teórico-científico do trabalho em análise, falta de comunicação da editoria com autores, entre várias outras intercorrências que redundam, de forma geral, na demora da tramitação e na baixa qualidade do que é publicado. Há vários elementos a serem explorados neste tópico, tanto que quero publicar uma série específica de posts exclusivamente sobre o assunto de editoração. Mas o fato é que sem periódicos realmente profissionalizados não há como almejarmos que nossos periódicos logrem produzir impacto na produção internacional em psicologia.

Como já apontei em outros posts da série avalio como muito positivo a ação da psicologia brasileira em indexar em bases relevantes os periódicos aqui editados, mas ainda há muito mais o que fazer para garantir impacto. A simples indexação, sem a implementação de ações como as cinco que listo neste post, conseguiu garantir o aumento internacional da produção nacional, mas seu impacto não aumentou na mesma proporção. Se esta ação de internacionalização por meio da indexação dos periódicos continuar com a mesma política o que vamos assistir (ou o que estamos assistindo) é um ‘voo de galinha’, que funciona mas é muito curto.

Quanto aos pesquisadores e seus grupos de pesquisa

A inovação na pesquisa surge da ação de organização de linhas de investigação que os pesquisadores executam. São estes indivíduos que formam novas gerações de pesquisadores e aglutinam as ações que proporcionaram um processo de inserção internacional da pesquisa feita no país. Por isto considero este como um nível de análise privilegiado, até porque ele produz resultados diretos no que é publicado nas revistas.

  1. Foco internacional na elaboração de projetos de investigação: considerando que os projetos de investigação do pesquisador são o foco de aglutinação de suas ações é fundamental que estes sejam elaborados de forma a atender às demandas do que é ‘atraente’ do ponto de vista internacional. A análise cuidadosa e o acompanhamento constante da linha editorial e do que é publicado nos journals de maior impacto da área do pesquisador, bem como aquilo que é publicado nos journals generalistas sobre aquela área, é o mote que deve nortear a elaboração dos projetos de pesquisa, bem como os trabalhos de mestrado e doutorado sob orientação. Especial atenção deve ser dada aos métodos e estratégias de pesquisa sendo apresentados e discutidos no campo, de forma a empregar tais procedimentos nos projetos próprios. Isto aumenta a chance de veiculação do que é produzido em periódicos editados fora do país, o que é fundamental para um processo de internacionalização sustentável, o que retroalimentará as revistas nacionais com projetos alinhados com linhas editoriais de journals efetivamente internacionais.
  2. Aproveitamento de temas e nichos locais com uma perspectiva global: evidentemente não é fácil publicar em journals de alto impacto em psicologia. A produção de inovações varia de subárea para subárea mas há possibilidade de identificação de temas e nichos, característicos de diferentes campos, como forma de produção inovadora competitiva para journals internacionais. Esta possibilidade deve ser identificada e aproveitada como estratégia para atrair a atenção de editores de bons periódicos. O Brasil está em um momento de evidência no cenário internacional e aproveitar este momento para a produção de manuscritos que explorem processos sub-estudados em nosso país são oportunidades que devem ser aproveitadas. É claro que aqui sugiro que a diretriz do item 1 seja coadunada com esta segunda diretriz, de forma a produzir conhecimento em temas e métodos referendados pela comunidade internacional, produzindo elementos de inovação que atraiam a atenção de pesquisadores pelo mundo afora.
  3. Criação de oportunidades de colaboração internacional: a criação de oportunidade para colaboração internacional é uma forma de qualificar e aumentar as chances de publicação em bons periódicos internacionais. Algumas áreas da psicologia tem maior propensão a este tipo de colaboração, como é o caso da psicologia transcultural. Mas existem ações de outros campos que necessitam ser mais bem aproveitadas pelos pesquisadores brasileiros. Um exemplo que tenho identificado está circunscrito às ações de replicação de efeitos experimentais em psicologia. Desde 2011 há um movimento bastante forte e articulado na psicologia mundial que aponta para a necessidade de valorização de ações de replicação de achados experimentais, principalmente em função da falta de credibilidade da pesquisa pela falta de replicação de efeitos e do baixo incentivo do campo, como um todo, na condução de pesquisas de replicação por laboratórios independentes. Há vários periódicos de alto impacto que já mudaram suas linhas editoriais e passaram a incentivar trabalhos de replicação. Em função da necessidade de se estabelecer redes laboratoriais que trabalhem em conjunto em projetos de replicação, este tipo de ação tem grande potencial para a produção de parcerias internacionais. Este é um exemplo de como atenção clara ao debate internacional pode possibilitar ao pesquisador a identificação de nichos que venham a potencializar sua produção internacional.

Sem dúvida a psicologia feita no Brasil está se internacionalizando e há muitos pesquisadores e programas com uma inserção expressiva no cenário internacional. Mas estes pesquisadores e programas fazem parte de uma minoria e a internacionalização faz-se necessária para toda a comunidade, de forma a torná-la sustentável. Me parece que já foram dados passos importantes, mas ainda há muito a ser feito para garantir o que já foi alcançado e para permitir sustentabilidade, algo que ainda não foi atingido. A internacionalização é fundamental para a melhoria da qualidade da pesquisa em psicologia feita no Brasil, de forma a aerar o que aqui é feito, permitindo que seja lido e criticado em todo o mundo, evitando a cilada do fechamento da produção para a formação de discípulos ou subcomunidades ‘internacionais’ que nada mais fazem do que reforçar os mesmos problemas e viéses característicos de uma comunidade científica fechada em si mesmo, lida apenas pelos seus integrantes locais. Pensar a internacionalização sob uma perspectiva global é uma forma de se possibilitar aumentar a influencia do que é feito no Brasil na pesquisa mundial, aumentar nosso impacto. O caminho não é fácil mas é necessário para dar longevidade à própria psicologia brasileira. Se não tivermos uma comunidade minimamente unificada em prol deste objetivo, avaliando oportunidade e tendo como meta internacionalizar, com ações reais e efetivas para isto, é pouco provável que consigamos atingir esta meta.

Fico por aqui e espero ter contribuído um pouco nesta discussão. Tenho a expectativa de lançar em um futuro breve ao menos mais uma série de posts para tratar de outro assunto sobre C&T da psicologia no Brasil. Obrigado por sua leitura e agradeço reações e contribuições com a discussão!

NOTA: A figura que ilustra este post foi extraída, via busca no Google, do site da Revista Exame.


1 Comentário

  1. Virgilio disse:

    Parabéns Ronaldo, pela série como um todo. Você abre várias perspectivas de discussões relevantes para a comunidade científica e para os Programas de Pós-Graduação.

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