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O quão internacional é a Psicologia feita no Brasil IV: Como andam nossas revistas?

Considerando que nospsybull0001 posts anteriores fica patente que o incremento do impacto mundial (em quantidade de documentos) da produção científica da Psicologia feita no Brasil se deve a indexação dos periódicos editados no Brasil, nada mais lógico do que analisar indicadores destes nossos periódicos. Portanto, este é o objetivo deste quarto post da série sobre a internacionalização da pesquisa em Psicologia. A base de dados continua a mesma, as informações sobre desempenho de periódicos da Scimago.

A primeira informação que chama a atenção nesta análise é a lista de revistas editadas no Brasil, categorizadas como da área de Psicologia, indexadas no Scopus. A lista é a seguinte (com respectivo ano em que os primeiros documentos foram contados na base): Psicologia: Reflexão e Crítica – PRC (2006); Psicologia: Teoria e Pesquisa – PTP (2006); Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental – RLPF (2008); Lua Nova – Revista de Cultura e Politica (2006); Estudos de Psicologia (Natal) – EP (2006); Psicologia em Estudo – PE (2006); Psicologia e Sociedade – PS (2006); Psychology and Neuroscience – PN (2010); Psicologia Clínica – PC (2007); Psicologia: Teoria e Prática (2010); Psicologia USP (2006);  Mana: Estudos de Antropologia Social (2006);  Horizontes Antropológicos  Caderno CRH (2009); Arquivos Brasileiros de Psicologia – ABP (2009); Agora (2008); Paideia (2011). Sem entrar no mérito do critério de classificação das revistas para suas respectivas áreas que o Scopus/Scimago adota, chama a atenção que algumas das revistas tem sua identidade primária com outras áreas do conhecimento que não a Psicologia. Para efeito das análises subsequentes considerei apenas as revistas com identidade primária com a Psicologia, com avaliação em nível A1 ou A2 no Qualis de Psicologia e que foram indexadas há mais tempo na base (o que nos fornece mais dados para serem analisados), que são as seguintes: PRC, PTP, Estudos de Psicologia, Psicologia em Estudo, PS e Psicologia USP.

Considerando o indicador SJR, que refere-se ao número médio ponderado de citações que o periódico recebeu em um ano específico para os documentos publicados nos três anos prévios, todas as seis revistas brasileiras estão no terceiro e no quarto estratos da distribuição. A Figura 1 apresenta os valores SJR relativos para quatro anos em análise 2008-2011.

SJR dos dez periódicos brasileiros 2008-2011

Figura 1. Valores do SJR para os seis periódicos brasileiros em análise no período 2008-2011

No ranking geral SJR das revistas para a base corrente 2011 (coluna roxa na Figura 1), a nossa melhor colocada, PRC, está na 269ª posição e a segunda colocada, PTP, na 272ª (de um total de mais de 300 periódicos). Para se ter uma ideia o primeiro colocado neste ranking é o Annual Review of Psychology (SJR=8,14) seguido do Psychological Bulletin (SJR=5,84 – por isto a foto da capa dele neste post). Existe uma clara variação nas citações às revistas no período analisado, algumas com mais intensidade de variação e outras mais homogêneas. É necessário esperar mais tempo para a avaliação do impacto das citações às nossas revistas, mas no geral já fica evidente a necessidade de uma ação mais agressiva de internacionalização de todos os periódicos, por meio da adoção de linhas editoriais que privilegiam realmente a visibilidade e citação do que é publicado, bem como a veiculação em língua inglesa, além da profissionalização do processo editorial visando a melhoria da qualidade das publicações (sobre estas sugestões, pretendo explorar melhor o tema da editoração científica nas revistas de Psicologia em uma série específica de posts).

Como elemento comparativo analisei os indicadores médios do SJR dos seis melhores periódicos de alguns países, na área de Psicologia e comparei com o SJR médio de 2011 dos seis periódicos Brasileiros que são analisados neste post. Veja os resultados na Figura 2.

SJR médio países

Figura 2. Valores médios do SJR-2011  para os seis periódicos mais bem classificados de cada país na área de Psicologia (OBS: México e Colômbia tem apenas 4 periódicos indexados)

Esta análise apenas ressalta os indicadores de impacto muito baixos de nossos periódicos, que estão classificados nos dois estratos inferiores da avaliação do SJR.

A colaboração internacional é um indicador importante sobre a internacionalização da produção, como já foi discutido em outros posts desta série. A Figura 3 apresenta os indicadores de colaboração internacional nos periódicos em análise na série 2006-2011.

Colaboração Internacional seis periódicos brasileiros

 Figura 3. Percentual de artigos autorados por mais de um país para as seis revistas na série entre 2006-2011

Como pode se observar a taxa média das revistas é baixa (10,5%), com dois picos de colaboração da Estudos de Psicologia em 2006 e 2007. Se estes picos são retirados a média de colaboração cai expressivamente (7,5%). Nos três últimos anos da série o percentual das colaborações internacionais diminui , o que deveria ter comportamento contrário, pois se esperaria maior efeito dos investimento da internacionalização em anos mais recentes, devido ao esforço que tem sido empreendido pela comunidade para alcançar esta meta.

A avaliação do número de documentos citados em um periódico é importante para se avaliar o impacto do mesmo na área. A Figura 4 apresenta informações sobre o número de documentos citados.

% de docs publicados citados para periódicos nacionais

Figura 4. Percentual de artigos citados ao menos uma vez nos três últimos anos, em relação ao ano de referência na figura, considerando o número total de documentos publicados no mesmo período

Pode-se notar um aumento gradual na citação a documentos ao longo da série. De forma geral a média de ao menos uma citação a documentos é baixa, pois mais de 3/4 dos documentos publicados não recebem nenhuma citação. A citação aos artigos é um indicador fundamental da relevância do que é publicado e é uma informação essencial da qualidade do periódico. Ao que tudo indica nossas revistas tem produzido muito mais informação que não gera impacto do que informação que recebe alguma atenção qualificada da comunidade científica.

Se a política de internacionalização que nossa comunidade vai adotar é por meio da indexação dos periódicos editados no Brasil, então o investimento na melhoria da qualidade do que é publicado por nossos periódicos tem que mudar substancialmente, além da veiculação ser feita integralmente em Inglês. Por outro lado há alternativas para este processo de internacionalização. Veja um exemplo: A China tem apenas 2 periódicos indexados no Scopus na área de Psicologia, mas é o 14º com maior número de documentos publicados em 2011 (o Brasil é o 10º). Se rankearmos pelo fator H a China basicamente empata com o Brasil (22º China contra 21º Brasil). O investimento de nosso colega BRIC é na publicação em periódicos editados por outros países, diferente da estratégia que o Brasil tem adotado. Não acho que tenha nada de mal em indexarmos periódicos brasileiros em grandes bases, mas não dá para deixar de investir na internacionalização da pesquisa feita no Brasil por meio da publicação em periódicos de outros países. As duas ações tem que andar em conjunto, até porque uma potencializa a outra.

Há muito a ser trilhado e espero contribuir nos próximos posts desta série e nos posts da séria sobre Editoração Científica (quando der tempo o farei) sobre este assunto da qualidade do que publicamos em nossos periódicos.


3 Comentários

  1. Claudio S. Hutz disse:

    Excelente!!! Vou divulgar esse texto para meus colegas no PPG Psicologia UFRGS. Creio que é uma análise muito bem feita e muito apropriada e que deveria ser amplamente divulgada.

  2. Isolda de Araujo Gunther disse:

    Muito bem feito!

  3. Juliane Borsa disse:

    Ótimo material. Obrigada por compartilhar. Divulgarei aos colegas.

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