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O quão internacional é a Psicologia feita no Brasil III: Colaboração Internacional e Impacto Mundial

Paisagem-Bandeira-do-Brasil

Dando sequencia a discussão sobre a internacionalização da produção científica da Psicologia brasileira quero, neste post, abordar alguns indicadores e aproveitar para fazer uma análise comparativa dos mesmos com outras nações. Os indicadores são os seguintes: a colaboração internacional dos artigos publicados em periódicos indexados no Scopus; a representatividade percentual da produção mundial em Psicologia que diz respeito ao Brasil; e o Fator H. Como explicado no primeiro post da série, a base de dados continua sendo a corrente fornecida pelo Scimago e, em sua maioria, com análises restritas à Psicologia, unicamente.

A colaboração internacional é um indicador relevante de internacionalização da produção científica, pois ela aponta para a colaboração na elaboração de trabalhos acadêmicos feitos por pesquisadores e laboratórios de diferentes nacionalidades. A Scimago nos brinda com este indicador, que não é suscetível ao problema da passagem do tempo para se concretizar, como é o caso das citações aos artigos. A Figura 1 deste post apresenta o percentual da produção de cada ano que foi assinado em colaboração por autores provenientes de mais de um país.

% de autorias internacionais

Figura 1. Percentual de documentos publicados e autorados por pesquisadores provenientes de mais de um país com comparação entre: Brasil, Chile, Holanda, México e China.

Como pode ser observado na Figura 1 o Brasil mantém uma taxa de colaboração internacional acima dos 30 %, chegando aos 50 % em alguns anos entre 1996-2005. A partir de 2006 esta taxa cai para 20% ou menos. O motivo está associado, provavelmente, à indexação dos periódicos brasileiros no Scopus, como já apresentado nos posts anteriores. A Holanda, país já utilizado para comparações anteriormente, inicia a série com taxas da ordem de menos de 30% e aumenta para valores acima de 40% nos sete últimos anos da série. Nossos ‘companheiros’ latinos (i.e. Chile e México) tem taxas médias mais elevadas, particularmente o México. Chama a atenção na Figura 1 o elevado percentual de colaboração internacional da China (primeira vez que trago um BRIC para comparação aqui), que raramente está abaixo dos 60% na série histórica. Como elemento adicional de comparação apresento na Figura 2 a importância de cada um desses países para a produção mundial em Psicologia. Nossa colaboração internacional caiu de forma inversamente proporcional ao aumento de nossa produção total mundial. Muito provavelmente isto é efeito da indexação dos periódicos brasileiros da área de Psicologia no Scopus em 2006, o que ressalta o caráter de menor colaboração internacional na autoria do que é veiculado pelos periódicos editados no país.

% produção internacional brasil chile holanda mexico e china

Figura 2. Percentual da produção mundial em Psicologia de Brasil, Chile, Holanda, México e China.

Como pode ser observado na Figura 2 o Brasil ocupa a segunda posição em relação aos quatro outros países, isto de forma mais explícita após nossa ‘explosão’ de produção pós 2006. A Holanda é expressivamente mais produtiva que os demais, pois ocupa a sexta posição mundial na produção em Psicologia. Ainda nesta mesma toada é interessante comparar o percentual da produção brasileira mundial em Psicologia com a produção nacional em outras áreas do conhecimento. A Figura 3 apresenta estas comparações.

% produção internacional brasileira total e em quatro áreas

Figura 3. Percentual da produção mundial brasileira em Psicologia, Administração, Matemática, Agricultura e Biologia e o percentual total da produção científica brasileira.

Esta Figura 3 é elucidativa em alguns aspectos. A produção mundial em Psicologia ajusta-se, depois de 2006, quase que perfeitamente à produção científica brasileira como um todo, pois o percentual é bastante parecido. A tendência de crescimento aumentado da participação na produção mundial vista na Psicologia é semelhante ao que ocorreu nas Ciências Agrárias e Biologia e na Administração. O salto da produção nas Ciências Agrárias e Biologia é muito mais expressivo do que na Administração. O percentual relativo das Ciências Agrárias é bem acima da média da produção total brasileira ao longo de toda a séria histórica. Não sei dizer se este aumento de produção em Administração e Ciências Agrárias tem haver com o mesmo efeito do que ocorreu com a Psicologia a partir de 2006, mas arriscaria dizer que está é uma hipótese plausível para explicar este incremento da produção.

Para fechar este post e retornar a um indicador derivado de citações gostaria de apresentar uma comparação relativa entre nações para o Índice H. Este indicador pode ser aplicado a qualquer nível de análise em cientometria (cientista, periódico, país, instituição de pequisa etc etc). Ele gera um indicador que refere-se ao número H de artigos que receberam o mesmo número H de citações. Um país com H=100 significa que tem 100 artigos que receberam ao menos 100 citações. Esta é uma forma de combinar a quantidade da produção com a qualidade da mesma, sendo esta última aferida por um número mínimo de citações recebidas. Para mais informações sobre o índice H clique aqui. A Figura 4 apresenta a comparação do índice H para 10 países.

Fator H para Psicologia de 10 nacoes

Figura 4. Valores do índice H para dez países na produção exclusivamente da área de Psicologia

O Brasil está na 21ª posição do índice H na área de Psicologia, com um H=48, exatamente como a China (ainda que a China tenha a metade de nossa produção em termos de total de documentos publicados). Os EUA tem um H=332 (maior do que o H de toda a produção científica brasileira que é de 285) na área de Psicologia, o que o deixa em um patamar estratosférico, impossível para ser comparado. O fator H dá uma indicação mais clara do impacto da produção científica brasileira em Psicologia, pois apesar de sermos o 13º em quantidade de documentos produzidos, caímos 8 posições quando ordenamos a produção pelo índice H.

Bem, ao que tudo indica e como já salientado em outros posts, nossa produção total aumentou, mas os indicadores relativos não caminham na mesma direção. Aumentamos a participação na ciência internacional, mas diminuímos drasticamente as colaborações internacionais e estamos mantendo um patamar de números de artigos citados relativamente baixo, bem menor do que países com comunidade científica de Psicologia menor que a nossa (ex: Nova Zelândia – H=70; Canadá H=158).

Espero nos próximos dias publicar mais um post nesta série. Até lá!


3 Comentários

  1. Virgilio disse:

    Que belo trabalho Ronaldo. Creio que você reunindo um conjunto de informações, análises e hipóteses que devem ser discutidas em espaços mais amplos e que possam contribuir para superarmos os problemas evidentes que ainda temos em termos de internacionalização.

  2. rpilati disse:

    Caro Virgilio,

    Obrigado pelo interesse nos posts. A ideia publicar algumas anlises que sempre acompanhei desde quando descobri o projeto do Scimago Lab. Espero poder contribuir um pouco para as polticas de nossa rea.

    Ab

    Ronaldo Pilati Associate Professor – University of Brasilia Researcher of Productivity CNPq – Level 2 Personal Website GEPS Research Group Social and Work Psychology Department – Institute of Psychology Graduate Program in Social, Work and Organizational Psychology Vita Google Citations Phone: 55 61 3107-6874

  3. Felipe Valentini disse:

    Parabéns Ronaldo pela iniciativa!
    Excelente análise.
    Abraço,
    Felipe Valentini.

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