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O quão internacional é a Psicologia feita no Brasil II: como estamos relativamente?

Comparação Social

A comparação social é um processo sócio-cognitivo há muito descrito e que tem várias funções, como melhorar sua auto-estima, por meio de uma comparação ‘para baixo’ ou de definir metas para melhorar seu desempenho (o que diminui sua auto-estima:)), se esta comparação é feita ‘para cima’. Então, nada mais natural do que continuar esta discussão sobre a internacionalização da Psicologia feita no Brasil trazendo alguns dados comparativos. Escolhi os seguintes países para compararmos com a produção brasileira (o julgamento ‘para baixo’ e ‘para cima’ eu deixo por conta do leitor): Chile, Espanha e Holanda. O primeiro por ser da América Latina e sujeito à semelhanças econômicas conosco; o segundo por produzir bastante em sua língua nativa, e possuir várias revistas editadas no país, o que é uma parecido conosco; e o terceiro por produzir basicamente em inglês (a Holanda adotou o inglês como língua oficial nas universidades há mais de 40 anos) e muito ativo na comunicação científica em diversas áreas, inclusive na Psicologia (julgo que é um modelo a ser seguido). Bem, a base de dados de comparação segue sendo a mesma. Caso não tenha visto, recomendo que dê uma olhada no primeiro post da série.

O cenário que encontramos é o seguinte.

Docs Publicados Brasil Chile Spain Holanda

Figura 1. Número total de documentos produzidos entre 1996-2011 para os quatro países

O padrão de crescimento da produção brasileira é semelhante a do Chile, até o ano de 2006. A partir daí nossa produção se aproxima da Espanha, segundo lugar, mas ainda fica abaixo.

Quando comparamos o número total de citações entre os quatro países a situação é diferente, pois mantemos um padrão semelhante ao nosso vizinho latino-americano. Como eu já havia comentado anteriormente a indexação de nossos periódicos não alterou o impacto de nossa produção, ou seja, aumentamos em quantidade mas a qualidade permanece relativamente a mesma (mas vale lembrar que as citações levam tempo para ocorrem, o que explica o constante efeito de queda da curva nos gráficos de linhas de série temporal). A Holanda, como seria esperado, tem uma quantidade muito maior de citações do que os demais. A Figura 2 sumariza estes dados.

Citações Brasil Chile Spain Holanda

Figura 2. Número total de citações a documentos produzidos entre 1996-2011 para os quatro países

Outro indicador relevante diz respeito às auto-citações. Este é um critério importante para identificarmos a endogenia da produção, entre outros elementos relativos à internacionalização. A Figura 3 apresenta os dados de percentual de auto-citações para os quatro países em comparação.

% AutoCitações Brasil Chile Spain Holanda

Figura 3. Percentual de auto-citações a documentos produzidos entre 1996-2011 para os quatro países

Como pode ser notado a Holanda apresenta um percentual relativamente constante durante toda a série histórica, algo ao redor de 25% das citações são auto-citações. A produção do Chile, por ter uma variação bastante grande de sua produção dentro da série histórica, possui variações amplas ao longo do tempo. Mas é interessante notar que a tendência do Chile é como a do Brasil, que tem um aumento espetacular do percentual de auto-citações a partir de 2006 (os motivos para este aumento foram informados no post anterior). A Espanha, por sua vez, mantém seu padrão elevado de auto-citações ao longo de todo o período. Talvez este indicador seja o que mais evidencie a principal característica da produção destes três países, que ainda está centrada em suas línguas maternas e não o inglês. Sem dúvida existem outros fatores para explicar este resultado, mas aposto que a produção em língua local é um dos preditores relevantes para este resultado.

Por fim vale avaliar a citação média para cada documento. A Figura 4 apresenta esta informação.

Citações por doc Brasil Chile Spain Holanda

Figura 4. Média de citações para cada documento produzidos entre 1996-2011 para os quatro países

É interessante notar que o Brasil possuía um desempenho melhor neste quesito no início da série histórica e o desempenho comparativo vai caindo gradualmente até o ‘tropeço’ no grande degrau de 2006. De forma geral todos tem um decréscimo significativo nos últimos cinco anos da série histórica, o que se deve ao efeito do processo de citação a documentos publicados, que toma certo tempo para produzir-se.

Estamos ‘mal na fita’? A análise do indicador do número de documentos produzidos revela semelhança no padrão de evolução da quantidade de produção, ainda que estejamos em terceiro lugar neste comparativo. Ficamos a frente do Chile, o que seria esperado por termos uma comunidade científica mais numerosa, mas abaixo de Espanha e Holanda. Mas quando olhamos para o impacto da produção nosso cenário é parecido com Chile e Espanha, mas muito diferente da Holanda, que tem um nível médio de impacto maior do que os demais. Isto se repete no quesito auto-citações, em que Holanda tem um padrão uniforme de cerca de 1/4 das citações totais, algo que não ocorre com os outros três, que possuem indicadores de auto-citação bem maiores. O Brasil é o único que tem um efeito relevante a partir 2006, devido a indexação de nossos periódicos no Scopus. Isto, como já comentado no post anterior, trouxe um efeito deletério para os indicadores de qualidade/impacto da produção nacional.

Bem, seguimos na série. Espero publicar novo post nos próximos dias.


2 Comentários

  1. Parabéns Ronaldo! Suas considerações estão fornecendo elementos importantes para a nossa reflexão enquanto pesquisadores! Tenho divulgado as matérias na Fan Page da Revista Avaliação Psicológica!

  2. rpilati disse:

    Cara Accia,

    Muito obrigado pelo interesse. Ontem publiquei novo post da srie.

    Ab

    Ronaldo Pilati Associate Professor – University of Brasilia Researcher of Productivity CNPq – Level 2 Personal Website GEPS Research Group Social and Work Psychology Department – Institute of Psychology Graduate Program in Social, Work and Organizational Psychology Vita Google Citations Phone: 55 61 3107-6874

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