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O quão internacional é a Psicologia feita no Brasil?

Nas últimas semanas houve uma quantidade significativa de postagens e reportagens sobre a internacionalização da ciência feita no Brasil. Alguns dos exemplos desta discussão são estes:

Bom, a pergunta que obviamente vem a cabeça de um Psicólogo cientista e que investe boa parte do seu tempo qualificando e tentando internacionalizar a própria produção científica é: e a Psicologia feita no Brasil, como vai?

Então nos resta dar uma olhada nos números na mesma base de dados que motivou esta discussão nas últimas semanas, o ranking feito pela Scimago, que utiliza como base de indexação o Scopus.

Todas as análises a seguir são feitas apenas para a área de Psicologia, conforme categorizado no site da Scimago.

Na produção total entre 1996-2011, o Brasil ocupa a 13ª posição do total de documentos produzidos, com 4.144 documentos (dos quais 3.990 são citáveis). Com relação às citações o Brasil ocupa o 20º lugar, com 15.212 citações em todo o período e a 36ª posição nas citações médias por documento, com uma média de 11,64 citações por documento.  Mas seria importante analisar o crescimento ao longo dos anos, uma vez que houve maior investimento nos últimos tempos. Então preparei algumas figuras que procuram demonstrar esta evolução, analisando dados brutos e relativos e considerando os dados correntes na base.

Docs Publicados

Figura 1. Número de documentos produzidos por ano entre 1996-2011 no Scimago para as produções do Brasil da área de Psicologia.

A Figura 1 indica uma quantidade relativamente constante de documentos produzidos até 2005, quando há uma explosão na quantidade de produções. Esta ‘explosão’ coincide com o ano de indexação no Scopus da grande maioria das Revistas de Psicologia editadas no Brasil. Das 17 revistas brasileiras indexadas no Scopus, 15 o foram no ano de 2006. Então surge o questionamento: a Psicologia feita no Brasil está internacionalizando sua produção, ou seja, os pesquisadores brasileiros estão conseguindo publicar seus trabalhos em periódicos editados fora do país ou fomos eficientes em indexar os periódicos editados no Brasil no Scopus? E as citações estão baseadas em citações feitas em artigos publicados em periódicos editados fora do Brasil ou referem-se a artigos publicados em periódicos brasileiros?

Em relação às citações a situação é diferente do número total de artigos publicados, como pode ser visto na Figura 2.

Citações

Figura 2. Número de citações e auto-citações a artigos brasileiros entre 1996-2011 no Scimago para as produções do Brasil da área de Psicologia.

Alguns cuidados são necessários para a análise dos dados desta Figura 2. As citações são da base corrente e estas necessitam de tempo para que ocorram. A tendência de queda nos últimos anos esta relacionada a falta de tempo para que os artigos sejam publicados e só com a publicação é que uma citação entra na base. Um tempo razoável para esperar citações a documentos é algo entre 3-4 anos. O que pode se observar na Figura 2 é que a quantidade de citações não sofreu uma explosão proporcional àquela observada na Figura 1, quando da indexação dos periódicos brasileiros. Houve um aumento, mas não foi da mesma magnitude. Na verdade a magnitude da relação é inversa. O índice de correlação bivariada entre os documentos e citações é baixo e negativo (r= -0,37). As auto-citações também sofreram um incremento bastante significativo. Entre 1996-2005 a média do percentual de auto-citações foi de 19,82%, mas no período de 2006-2011 esta média mais que dobra chegando a 41,31%. Isto provavelmente é devido a indexação da maioria dos periódicos brasileiros em 2006, externalizando o caráter endógeno da produção, quando a citação aos documentos brasileiros é feita basicamente por revistas brasileiras. Parte desta explicação é relativa ao idioma, pois as revistas brasileiras ainda publicam, em sua esmagadora maioria, artigos escritos em português, o que acaba alcançando somente quem lê nosso idioma.

Outro indicador relevante para entendermos a qualidade da produção é a citação média por documento, o que pode ser observado na Figura 3.

Citações por documento

Figura 3. Número de citações por documento a artigos brasileiros entre 1996-2011 no Scimago para as produções do Brasil da área de Psicologia.

A Figura 3 indica um decréscimo substancial neste indicador. Com o incremento explosivo do número de documentos a partir de 2006 a média de citações por documentos desabou. É assustador notar que o coeficiente de correlação bivariada entre o número de documentos e a citação média por documento entre 1996-2008 (retirei os três últimos anos devido ao efeito do tempo para que as citações ocorram) é alto e negativo (r= -0,77).

Bem, apenas tendo por base este conjunto de dados e estas análises descritivas singelas a resposta à pergunta é que não estamos internacionalizando realmente. Mais do que isto a ciência psicológica feita no Brasil, avaliada a partir dos indicadores, não atrai a atenção dos pesquisadores de fora do Brasil. Além disto, temos que tomar cuidado na análise baseada apenas em indicadores brutos da quantidade da produção, o que acaba por inflacionar esta produção em função do incremento substancial da indexação, no Scopus, de periódicos nacionais da área de Psicologia.

Sem dúvida ainda há muito para a pesquisa em Psicologia feita no Brasil lograr internacionalizar-se de forma efetiva e sustentada. As ações são várias, desde a veiculação em língua inglesa, que é ação necessária mas não suficiente, até, principalmente, o alinhamento das linhas de pesquisa nacionais aos temas, métodos e debates feitos nos principais periódicos internacionais das diversas áreas da Psicologia. Muito ainda há a ser feito e quero abordar esta questão de forma sistemática em outros posts neste blog.


5 Comentários

  1. Cícero Pereira disse:

    Olá Ronaldo,
    é uma ótima análise sobre o ponto da situação da publicação em psicologia no Brasil.

    abraços

    Cícero

  2. Virgilio disse:

    Ótima análise Ronaldo.. fico esperando os próximos post. Ao final deste triênio vamos ter um dado interessante, o crescimento (ou não) neste período de artigos publicados em revistas estrangeiras. Com mais tempo vamos ter uma série histórica mais longa para acompanhar este movimento da produção da psicologia brasileira.

  3. Luciana Mourão disse:

    Olá Ronaldo, suas análises são realmente interessantes. Não há dúvida que ainda estamos engatinhando, mas acredito que nos próximos anos caminharemos a passos um pouco mais largos rumo à internacionalização das publicações em Psicologia no Brasil. Acho muito pertinente a sua ponderação de que não basta publicar em língua inglesa, mas também buscar alinhamento com os temas e métodos feitos nos principais periódicos internacionais da nossa área.

  4. rpilati disse:

    Caro Ccero,

    Muito obrigado por seu interesse.

    Ab

    Ronaldo Pilati Associate Professor – University of Brasilia Researcher of Productivity CNPq – Level 2 Personal Website GEPS Research Group Social and Work Psychology Department – Institute of Psychology Graduate Program in Social, Work and Organizational Psychology Vita Google Citations Phone: 55 61 3107-6874

  5. rpilati disse:

    Ol Luciana.

    Obrigado pela leitura e comentrio do post. Ontem postei o terceiro da srie.

    Ab

    Ronaldo Pilati Associate Professor – University of Brasilia Researcher of Productivity CNPq – Level 2 Personal Website GEPS Research Group Social and Work Psychology Department – Institute of Psychology Graduate Program in Social, Work and Organizational Psychology Vita Google Citations Phone: 55 61 3107-6874

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